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A maior dificuldade da psicologia Tomista. Uma reflexão.

  • 22 de mar. de 2024
  • 5 min de leitura



Considero a filosofia tomista altamente realista e profundamente significativa, pois ela explica de forma bastante abrangente diversos aspectos dos movimentos da alma humana. E as explicações fazem sentido. Claro, o foco de santo Tomás é descrever o percurso do homem que, criado por Deus, tem como destino o próprio Deus. De fato, Tomás está em um contexto cultural e religioso distinto do atual. Atualmente, à diferença do passado, a sociedade renegou a Deus.


A sociedade medieval estava formada por indivíduos que acreditavam em Deus, com uma estrutura metafísica clara e fazia sentido para eles, por exemplo, aprofundar em temas como a luta contra os vícios e a aquisição de virtudes.




A nossa dificuldade hoje é incorporar essa antropologia tomista - que possui uma base metafísica, na qual o ser humano é um ente cuja essência é formada por matéria e forma substancial - às inúmeras visões antropológicas atuais. E mais: como essa concepção, eminentemente metafísica, pode se acoplar ao mundo da psicologia experimental contemporâneo?


A psicologia moderna, surgida de forma experimental com Wundt (sabemos que não foi assim, mas para os fins desse artigo deixemos assim) fundamenta-se em experimentos. Várias escolas e teorias surgiram a partir de então. Aliás, todo um projeto hegemônico surgiu a partir de então, encabeçado pela psicanálise que demonstrou o seu interesse por ser a nova metafísica da psicologia.


Todavia, estas teorias, baseadas em experimentos psicológicos, carecem de uma única visão filosófica, ou seja, metafísica, visto que a visão metafísica clássica feneceu há séculos, e a crise decorrente dessa "morte" é palpável hoje, em uma sociedade que luta para dialogar entre diversas disciplinas, incluindo as psicológicas, muitas das quais não se comunicam efetivamente.


Portanto, para os amantes do tomismo, o desafio é se livrar do pensamento hegemônico psicanalítico e ressuscitar a visão de mundo metafísica clássica e integrá-la à psicologia experimental. Será mesmo? Será que esse é o passo necessário para "batizarmos" definitivamente a "psicologia" tomista, ou devemos seguir a linha de enterrar a psicologia experimental e a "metafísica" psicanalista e voltar a uma visão de mundo medieval?


Afinal, na idade média, parece ser que não existia propriamente uma psicologia "experimental" tomista, mas sim uma visão de mundo agora deslocada.


Destaca-se, ainda, a dificuldade de comunicação com um mundo que tende a equiparar qualquer elemento filosófico da igreja católica a algo puramente religioso, comparando, por vezes, a religião à superstição ou ao pensamento infantil.


Será que diante disso, o uso de termos mais filosóficos para tratar os comportamentos humanos, como "hábitos" em vez de "virtude" e "vícios", por exemplo, não poderia criar uma linha de comunicação com o tomismo e o mundo psicológico cientista? Mas, indo por este caminho, não se estaria caindo na pura linguagem, evidenciando que os desafios são múltiplos e complexos.


Sem a metafísica resta a pura linguagem para lidar com as questões atuais? E, dando um passo a mais, quanto realmente a metafísica é práxis, ou seja, "serviria" para algo? A filosofia se tornará utilitária só pelo fato de que nós queremos que seja ou estamos diante da dicotomia filosofia e práxis?





A FILOSOFIA NÃO SERVE PRA NADA


Seria possível pensar que a filosofia é inútil, de fato, uma das conclusões de Aristóteles é precisamente esta, mas há uma explicação. É crucial entender que seu verdadeiro valor reside justamente em sua autonomia de qualquer servidão.


Aristóteles argumenta que isso a torna a forma mais elevada de conhecimento. Em um mundo governado pelo consumismo e materialismo, aquilo que não pode ser imediatamente palpável ou adquirido é frequentemente descartado como irrelevante. No entanto, a filosofia é uma jornada e um esforço constante em busca do saber, um alvo que parece recuar à medida que nos aproximamos. Ela não satisfaz desejos imediatos, exige tempo e esforço, atributos que são pouco atraentes numa era que favorece a gratificação instantânea. Aqueles que se entregam à pesquisa filosófica não são escravos de necessidades imediatas, mas sim motivados pelo puro desejo de conhecimento. Segundo Aristóteles, a filosofia, por não servir a nenhum senhor, não serve a ninguém de forma direta.


Platão, no "Simposio", destaca a conexão entre filosofia e amor. Os seres humanos buscam o conhecimento por amor à verdade, não por interesse pessoal ou benefício imediato. Para Platão, Eros (o desejo) move-se em direção àquilo que não possui, assim como o filósofo busca o conhecimento por ainda não o possuir. Eros é atraído pela falta e, na tentativa de preenchê-la, nasce o desejo. Essa posição intermediária e constante de Eros faz dele um filósofo, pois não é nem um deus nem um ignorante. Se fosse um deus, não desejaríamos saber, pois já teríamos o conhecimento; se fossemos ignorantes, não veríamos valor na busca filosófica, considerando-nos já sábios. A filosofia, portanto, não é subjugada por nenhum interesse, é uma busca desinteressada que nos leva para além do mundano e dos prazeres efêmeros.


A filosofia nasce do espanto, frequentemente ansiando pelo que nossas necessidades impõem, desde necessidades físicas básicas até o desejo de posse. O que nos traz paz é a satisfação imediata dessas necessidades. No entanto, o desejo no âmbito da pesquisa filosófica não é tão facilmente aplacado. A chave para alcançá-lo é a busca. Os obstáculos que encontramos no caminho não são barreiras, mas sim aspectos que enriquecem a jornada. Frequentemente, resistimos a tudo que requer tempo, mas muitas vezes é a espera que confere valor à experiência.


Deveríamos aprender a observar a realidade simplesmente pelo prazer de fazê-lo, sem segundas intenções, com maravilhamento, tal como Aristóteles descreve no primeiro livro da Metafísica, referindo-se ao espanto que dá origem à filosofia: um conhecimento livre e desvinculado de qualquer servidão.





A FILOSOFIA NÃO MATA A PSICOLOGIA MAS A ENRIQUECE


Integrar a psicologia à filosofia pode parecer, à primeira vista, como se fosse limitar a aplicabilidade prática da psicologia, considerando a percepção de que a filosofia carece de práxis, ou seja, de aplicação prática. No entanto, essa fusão não necessariamente "mata" a psicologia; pelo contrário, pode enriquecê-la profundamente. A filosofia, com sua incessante busca pelo conhecimento e pela verdade, proporciona um terreno fértil para questionamentos e reflexões que são essenciais para a psicologia, uma ciência que também se debruça sobre questões fundamentais da existência humana, como a mente, as emoções e o comportamento.


Ao considerarmos a filosofia não como uma entidade estática, mas como um processo dinâmico de questionamento e descoberta, podemos ver como ela complementa a psicologia. A psicologia, por sua vez, com seu foco na observação, na experimentação e na aplicação prática, pode oferecer à filosofia um caminho para a materialização de suas abstrações. Dessa maneira, a psicologia não é subjugada pela filosofia; ela é ampliada por ela. A abordagem filosófica incentiva os psicólogos a olhar além dos dados empíricos e a considerar as implicações mais profundas de seu trabalho, enraizando suas descobertas em uma compreensão mais ampla da condição humana.


Platão e Aristóteles, com suas reflexões sobre Eros e o espanto diante do mundo, respectivamente, nos mostram que a filosofia e a psicologia compartilham um interesse comum pelo mistério da mente e pela natureza do desejo humano. Assim como Eros é movido por uma falta, a psicologia busca entender as lacunas na experiência humana, seja através do estudo dos transtornos mentais, seja na exploração do desenvolvimento humano. A filosofia, com sua ênfase na maravilha e no questionamento, pode inspirar os psicólogos a abordarem suas pesquisas e terapias com uma mente aberta e curiosa, sempre buscando compreender além do que é imediatamente apresentado.


Além disso, a filosofia oferece um quadro ético que é crucial para a prática psicológica. A reflexão filosófica sobre ética, moralidade e o bem comum pode guiar psicólogos na condução de suas pesquisas e na prática clínica, assegurando que o bem-estar dos indivíduos e da sociedade permaneça no centro de seu trabalho.

Portanto, longe de "matar" a psicologia, a integração com a filosofia pode revitalizá-la, fornecendo uma base mais rica e profunda para entender os complexos desafios da mente e do comportamento humano. Juntas, psicologia e filosofia podem avançar em nosso entendimento do ser humano, abrindo novos caminhos para a cura, o crescimento pessoal e a compreensão da nossa própria humanidade.


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