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Fé, moralidade e saúde mental

  • 19 de mar. de 2024
  • 2 min de leitura


Em 2018 Padre Raffaele Talmelli, exorcista da diocese de Siena e profissional da psiquiatria e psicologia, ofereceu uma perspectiva profunda e multidimensional sobre a interação complexa entre fé, moralidade e saúde mental. A entrevista em italiano pode ser encontrada aqui.


Esta conversa, enriquecida pelas reflexões do Papa Francisco na exortação "Gaudete et exsultate", revela a luta constante e multifacetada enfrentada pelos cristãos em seu caminho espiritual, abordando desde a realidade inegável do diabo até a distinção crítica entre possessões diabólicas e doenças mentais.


O Papa Francisco destaca a jornada da vida cristã como um combate permanente, onde a resistência contra as tentações do diabo é crucial para a proclamação do Evangelho. O diabo é apresentado não como uma metáfora, mas como uma entidade real, insistindo na importância de não subestimar sua presença sob o risco de cair na corrupção moral. Esta abordagem desafia a visão moderna que muitas vezes desacredita a existência do maligno, reduzindo-o a um simples símbolo ou ideia, e destaca a importância do discernimento espiritual - uma capacidade que transcende a mera razão e prudência, permitindo-nos perceber o plano divino para nossas vidas.



Padre Talmelli, com sua dupla expertise, esclarece que as possessões diabólicas são um fenômeno real, diferenciado das condições psiquiátricas. Tais eventos não são arbitrários, mas frequentemente resultam de uma vida moralmente corrupta, refletindo uma vulnerabilidade espiritual onde o diabo pode atacar. Contrapondo a ideia de que tais fenômenos sejam mera consequência de desordens mentais, ele argumenta que a distinção é crucial para evitar mal-entendidos e danos aos que sofrem.


Além disso, a entrevista aborda a confusão comum entre pecado e doença mental. Enquanto o pecado envolve uma escolha consciente e deliberada, as doenças mentais afetam a capacidade de fazer essas escolhas, complicando a atribuição de responsabilidade moral. Isso destaca a importância de um diagnóstico correto e a abordagem adequada, ressaltando que a intervenção espiritual (como o exorcismo) não deve ser aplicada de forma indiscriminada, especialmente quando distúrbios psiquiátricos estão presentes.


A discussão se estende ao papel do diabo na vida cotidiana, contrariando a noção de Charles Baudelaire de que a maior astúcia do diabo é fazer com que as pessoas acreditem que ele não existe. Padre Talmelli sugere que, na contemporaneidade, o engano do diabo reside mais em desviar a atenção das pessoas para o irreal, distanciando-as dos verdadeiros campos de batalha espiritual, como injustiças, egoísmos, e a desintegração familiar, onde sua influência é mais diretamente sentida.


Por fim, a entrevista toca na questão da coexistência da bondade divina infinita com a realidade do demônio e do inferno. Usando as palavras de Papa Bento, é explicado que o amor incondicional de Deus não elimina a liberdade humana, incluindo a liberdade de rejeitar esse amor, uma perspectiva que ressalta a seriedade das escolhas espirituais frente à possibilidade real da condenação.



Através deste diálogo esclarecedor, fica evidente que a luta espiritual na vida cristã é intrincadamente ligada tanto à liberdade de escolha quanto ao discernimento entre o bem e o mal, a graça divina e a tentação diabólica. Enfatiza-se a necessidade de uma vida virtuosa e moralmente íntegra como defesa contra as forças do mal, ao mesmo tempo em que se reconhece a complexidade dos desafios mentais e espirituais enfrentados pelos fiéis.

 
 
 

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