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Há um limite entre ser um terapeuta cristão e o enriquecer-se com isso?

  • 7 de mar. de 2024
  • 4 min de leitura


Jesus ofereceu o maior de todos os presentes à humanidade: a graça. Uma dádiva tão inestimável que, por sua natureza, transcende qualquer forma de merecimento ou solicitação nossa. Ele mesmo se entregou a nós, livremente, sem pedir nada em troca. E é aqui que a essência da graça se revela em toda sua plenitude – um presente imerecido, uma oferta de amor puro.


Diante das tentações, Jesus rejeitou categoricamente as propostas de riqueza, fama e poder que lhe foram oferecidas por satanás. Em vez disso, Ele nos ensinou uma verdade fundamental: "De graça recebestes, de graça deveis dar". Advertiu-nos, ainda, sobre a impossibilidade de servir a dois senhores, enfatizando que nossa lealdade não pode estar dividida entre Deus e o dinheiro.


Contudo, surge um dilema moderno. Alguns, interpretando essas palavras com conveniência, procuram pregar os ensinamentos de Jesus, mas a um custo, paradoxalmente incentivando uma vida de simplicidade aos outros enquanto enriquecem às custas dessa mensagem. Tal postura nos leva a questionar: estaremos nós entre aqueles que, no dia do juízo, ouvirão do Senhor "afasta-te de mim, pois não te conheço", apesar de proclamarem ter feito milagres em Seu nome?


A Bíblia não condena a riqueza em si, mas alerta sobre os perigos do apego ao dinheiro (1 Timóteo 6,10). Diante disso, questiona-se: é possível conciliar uma profissão, como a terapia com raízes católicas, e uma remuneração justa por ela? A realidade é que a educação, a moradia e o tempo dedicado aos estudos têm seus custos. É legítimo cobrir essas despesas e viver dignamente, pois "o trabalhador é digno do seu salário".

O verdadeiro desafio reside em discernir entre sustentar-se de maneira honrada e acumular riquezas explorando a mensagem divina. O recurso a estratégias de marketing predatórias, a fixação de preços exorbitantes e a manipulação para maximizar lucros distorcem profundamente a essência do evangelho. Essa distorção não só compromete a integridade da mensagem cristã, mas também arrisca a genuinidade de nossa conexão com o divino, substituindo gradualmente a devoção a Deus pelo culto ao dinheiro.



Neste contexto, o maior perigo para aqueles que se dedicam ao caminho do Senhor e à busca pela Verdade, engajando-se na evangelização, é o deslumbramento pelo amor ao dinheiro. A jornada de alguém que era um desconhecido para se tornar um terapeuta renomado entre católicos e cristãos, cobrando valores cada vez mais altos, pode levar ao esquecimento das práticas espirituais, à negligência da própria vida espiritual, e à idolatria do dinheiro.


A reflexão sobre a essência da graça e a transmissão dos ensinamentos de Jesus nos leva a uma questão ainda mais ampla: a missão de compartilhar a antropologia filosófica de Santo Tomás de Aquino pode ser considerada uma forma de pregar o evangelho? À luz da obra de misericórdia que consiste em ensinar os ignorantes, a resposta parece inclinar-se para o afirmativo. Contudo, esse nobre objetivo enfrenta um desafio contemporâneo significativo: a mercantilização do ensino.


Será que certas instituições de ensino, incluindo renomadas universidades eclesiásticas em Roma, não transformaram o conhecimento em uma commodity, algo a ser vendido? Isso levanta uma questão perturbadora: se estamos vendendo o ensino, em vez de compartilhá-lo generosamente, estamos verdadeiramente vivendo os valores que Jesus nos ensinou?


Esta preocupação se aprofunda ao considerarmos a acessibilidade do ensino teológico e filosófico. Certa feita, no meu período romano, tive uma conversa com um clérigo envolvido no dicastério para a educação católica no Vaticano e ele me revelou uma resistência significativa à implementação de cursos online e à educação a distância (EAD) vinda do próprio dicastério. Embora os motivos específicos dessa resistência não tenham sido explicitados, essa hesitação me levou a uma reflexão inquietante: se grande parte do conhecimento teológico e filosófico permanece inacessível a não ser para aqueles com recursos financeiros para buscar formação, então a mensagem universal de Jesus estaria sendo comprometida?


Essa constatação é particularmente perturbadora em um mundo onde o acesso ao ensino poderia ser ampliado por meio da tecnologia, permitindo que a sabedoria de grandes pensadores como Santo Tomás de Aquino alcance um público muito mais amplo. O ensino, especialmente quando se trata de verdades tão profundas e significativas, deveria ser um dom partilhado livremente, uma expressão da graça que recebemos e somos chamados a estender aos outros.


Portanto, ao refletirmos sobre a dinâmica atual do ensino religioso e filosófico, somos chamados a questionar: estamos verdadeiramente honrando o mandato de pregar o evangelho a todas as criaturas? Ou estamos, de alguma forma, limitando a difusão da mensagem transformadora de Jesus ao restringir o conhecimento àqueles que podem pagar por ele?

Em última análise, a missão de transmitir a riqueza do ensino de Santo Tomás de Aquino, e de todo o evangelho, é uma chamada para repensar como podemos tornar a verdade acessível a todos, independentemente de sua condição financeira. Isso exige uma reflexão profunda e, possivelmente, uma reavaliação das práticas atuais, para que possamos viver de maneira mais fiel ao exemplo de graça incondicional que Jesus nos deixou.


Reflexão final


Muitos questionamentos são levantados nesse texto, refletindo a complexidade do equilíbrio entre espiritualidade e materialismo. Não é fácil encontrar respostas definitivas, especialmente ao navegar a tênue linha que separa a idolatria ao dinheiro da genuína pregação do evangelho. Este desafio é intensificado pelo contexto atual, onde a realidade das contas a pagar é uma constante na vida de muitos.


Sabemos que, além das despesas básicas, a disponibilidade de recursos financeiros frequentemente abre portas para novas despesas, alimentando um ciclo de querer sempre mais. Essa aspiração por acúmulo não é, por si só, ilícita. No entanto, a verdadeira questão que se impõe é: até que ponto é ético enriquecer-se à custa da mensagem do Senhor?

Esse dilema não apenas testa nossa integridade e valores, mas também reflete um debate mais amplo sobre a responsabilidade de compartilhar o evangelho de uma maneira que honre seu espírito de generosidade e serviço. Enquanto buscamos fazer a diferença no mundo, é fundamental questionarmos continuamente nossas motivações, assegurando que nosso compromisso com a mensagem de Cristo permaneça puro e desvinculado do desejo por ganho material.


Portanto, enquanto enfrentamos as demandas financeiras da vida, devemos estar atentos para não deixar que a busca por segurança material nos desvie do caminho da verdadeira fé. A busca por um equilíbrio que respeite a dignidade da nossa vocação e os ensinamentos do evangelho é um desafio constante, mas é também uma oportunidade para reafirmarmos nosso compromisso com uma vida de simplicidade, serviço e dedicação a valores que transcendem o material.

 
 
 

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