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O Verdadeiro Sacrifício da Quaresma: Uma Reflexão Inspirada nos Padres da Igreja

  • 20 de fev. de 2025
  • 3 min de leitura

A Quaresma é um tempo sagrado, uma oportunidade de conversão e renovação espiritual.


Contudo, em nossa sociedade contemporânea, a prática do sacrifício quaresmal muitas vezes se tornou uma lista de renúncias passageiras: deixamos de comer chocolate, ficamos sem redes sociais, evitamos um ou outro prazer.

Embora essas práticas possam ter valor, o verdadeiro sacrifício vai muito além de meras abstinências temporárias. A verdadeira Quaresma nos convida a um sacrifício contínuo, a um jejum perene do pecado e à transformação do coração.


O Espírito Contrito: O Sacrifício que Deus Deseja


Desde os tempos antigos, o profeta Isaías já advertia o povo sobre o jejum que agrada a Deus:


“Acaso é este o jejum que escolhi, que o homem mortifique a si mesmo por um dia? Que incline a cabeça como um junco e se deite sobre saco e cinza? Acaso chamas a isto jejum, e dia aceitável ao Senhor? Porventura, o jejum que prefiro não é este: soltar as ligaduras da impiedade, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo jugo?” (Is 58,5-6).

Os Padres da Igreja, profundos mestres da vida espiritual, ecoam essa verdade. Santo Agostinho ensina que o verdadeiro jejum é o da alma, o jejum do pecado:


“De que adianta tirar o alimento do corpo se o coração se alimenta da injustiça? Não tires apenas o pão da mesa, mas também a avareza do coração” (Santo Agostinho, Sermão 207).

Aqui, encontramos o coração da prática quaresmal: mais do que evitar certos alimentos ou práticas, é necessário evitar aquilo que nos afasta de Deus. É deixar de lado o pecado que sempre nos espreita e transformar o arrependimento em mudança concreta de vida.


A Perseverança no Sacrifício: Um Antídoto para o TDAH Espiritual


Muitas pessoas, especialmente aquelas que sofrem de TDAH ou outras dificuldades, iniciam a Quaresma com fervor, mas, passados alguns dias, o ânimo esmorece. Esquecem-se das resoluções, perdem o foco e, ao final da Quaresma, mal se lembram do que prometeram no início. Os Padres do Deserto já alertavam contra essa inconstância. Abba Poemen dizia:


“É melhor um pouco de persistência todos os dias do que grandes feitos por um curto período” (Apotegmas dos Padres do Deserto).

A verdadeira penitência não é um ato grandioso e isolado, mas uma constância humilde. Pequenos atos diários de renúncia, uma contínua vigilância sobre si mesmo, uma oração breve e sincera ao longo do dia: esses são os sacrifícios que nos transformam. Para aqueles que têm dificuldade de manter o foco, talvez o sacrifício mais valioso seja simplesmente voltar ao propósito inicial sempre que se perder, sem desânimo, mas com renovada esperança.


O Verdadeiro Jejum: Não Cometer o Pecado Arrependido


O verdadeiro jejum não se limita ao alimento, mas envolve toda a vida moral. São João Crisóstomo nos exorta:


“Queres honrar o jejum? Então, jejua também do pecado. Não permita que a tua boca diga palavras más, pois jejuaste com a boca. Que também os teus olhos jejuem, evitando o que é ilícito. Que as tuas mãos jejuem, ficando puras de rapina e avareza” (Homilia sobre o Jejum).

Essa é uma lição crucial: o verdadeiro jejum é não retornar ao pecado do qual me arrependi. Se me arrependi da impaciência, meu jejum é buscar a mansidão. Se confessei o orgulho, meu sacrifício é viver na humildade. Se lamentei a luxúria, minha penitência é cultivar a pureza.


Qual Jejum Convém a Cada Um?


Jesus nos ensina o tripé da vida espiritual: o jejum, a esmola e a oração (Mt 6,1-18). Contudo, cada um deve discernir qual jejum lhe convém. Para o avarento, o jejum da ganância. Para o orgulhoso, o jejum das vaidades. Para o desatento, o jejum das distrações. Abba Doroteu, um dos Padres do Deserto, aconselhava:


“Cada um deve combater seu defeito dominante, pois o diabo não ataca em qualquer lugar, mas onde sabe que a alma é mais frágil” (Ensinamentos Espirituais).

A Quaresma é uma oportunidade para identificar esse defeito dominante e oferecer a Deus o sacrifício que Ele verdadeiramente deseja: um coração contrito e um espírito renovado.


Conclusão: O Sacrifício que se Torna Vida


Ao longo da Quaresma, não nos deixemos enganar pela superficialidade de sacrifícios passageiros. O verdadeiro sacrifício é aquele que molda o coração, que se prolonga pela vida inteira. Se vivermos o verdadeiro jejum do pecado, se a nossa esmola for o amor ao próximo e a nossa oração for incessante, então teremos feito da Quaresma não apenas um tempo litúrgico, mas um modo de vida.


Que possamos, assim, ao final desses quarenta dias, não apenas voltar aos nossos velhos hábitos, mas nos tornarmos novas criaturas, transformadas pela graça e perseverantes no amor de Deus.



 
 
 

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