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Santo Tomás e a Psicopatologia

  • 15 de mar. de 2024
  • 3 min de leitura


Contrariamente ao que pode ser sugerido nas faculdades de psicologia modernas, a Igreja Católica na Idade Média, com a contribuição de grandes pensadores como Santo Tomás de Aquino, demonstrava um conhecimento profundo sobre a mente humana. O livro "Santo Tomás de Aquino e a Psicopatologia: Uma contribuição ao conhecimento da Psiquiatria Medieval", de Henrique Eduardo Krapf, exemplifica como o diálogo entre a sabedoria antiga de Aquino e as preocupações contemporâneas com o sofrimento psíquico pode ser relevante e esclarecedor. Esta obra atua como um elo entre diferentes épocas, permitindo que o leitor moderno descubra e aprecie a complexidade do pensamento de Aquino no âmbito da saúde mental.


Santo Tomás, destaca Krapt, oferece uma interpretação singular sobre os transtornos mentais, tecendo uma análise profunda que navega entre as dimensões espiritual e física do ser humano. Sua tese central, encapsulada na máxima "Anima enim humana non potest corrumpi, nisi per se corrumperetur" (A alma humana não pode se corromper a não ser que se corrompa substancialmente), lança luz sobre uma perspectiva onde a essência imaterial da psique humana permanece inatacável por doenças no sentido tradicional.


Para o Aquinate, os transtornos que afetam a alma derivam primariamente dos pecados, os quais encontram sua gênese no pecado original. Esta "ferida" na natureza humana manifesta-se através de distúrbios no uso das quatro potências principais da alma: a razão (ratio), a vontade (voluntas), a irascibilidade (irascibilis) e a concupiscência (concupiscibilis). Estas potências estão intrinsecamente ligadas às virtudes da prudência, justiça, fortaleza e temperança, mas se veem comprometidas pelas "quatro feridas" da natureza humana: ignorância (ignorantia), malícia (malitia), fraqueza (infirmitas) e desejo desordenado (concupiscentia). Aquino enfatiza que tais feridas são de natureza física, indicando uma perturbação no corpo que afeta indiretamente a alma.



O enfoque de Aquino na insânia como uma condição que exclui o uso da razão é particularmente revelador. Ele argumenta que, ao contrário de muitas interpretações contemporâneas a ele, a insanidade deve ser vista primariamente como uma doença física. Esta perspectiva é ressaltada por sua afirmação de que a insanidade surge não da corrupção da alma em si, mas de uma desconexão do corpo em relação à "devida complexão da espécie humana". Dessa forma, ele afirma que as debilidades do intelecto e dos sentidos não atingem diretamente a alma, mas resultam da debilidade dos órgãos físicos.


Santo Tomás de Aquino enfatiza que a alienação mental pode surgir de duas fontes principais: as paixões desmedidas ou disfunções no corpo físico. Ele observa que paixões intensas podem obstruir completamente o uso da razão, levando a estados de loucura. Por outro lado, alterações físicas, como no caso do sono ou da embriaguez, podem limitar a capacidade racional, atando a razão de maneira que impede sua expressão livre e plena. Essa dualidade entre as causas espirituais e físicas dos transtornos mentais ilustra a complexa visão de Aquino sobre a natureza humana, que não desconsidera a importância dos elementos corporais na manifestação de distúrbios mentais.


Ao discorrer sobre a concupiscência e outros desejos intensos, Aquino reconhece que, embora tais paixões não restrinjam a razão tão completamente quanto a embriaguez, podem, em sua intensidade máxima, levar à insanidade. Isso sugere uma compreensão de que os transtornos mentais podem ter tanto uma dimensão psicológica quanto física, e que o equilíbrio entre paixões e razão é crucial para a saúde mental.


No tocante a transtornos específicos, Santo Tomás dá especial atenção às alucinações, tratando-as de maneira comparável às sensações normais, mas com a diferença crucial de que as alucinações emergem de distúrbios internos, não de estímulos externos. Ele nota que tanto as influências externas quanto as alterações internas, como desequilíbrios dos humores, podem alterar a percepção, levando a experiências sensoriais distorcidas, como a amargura sentida por um enfermo devido a um desequilíbrio biliar.


Além disso, Santo Tomás destaca a importância de um julgamento correto da realidade na distinção entre percepções normais e alucinações. Para ele, a alucinação é caracterizada pela adesão a imagens imaginárias como se fossem reais, sem a correção pelos sentidos ou pela razão. Essa visão antecipa conceitos modernos sobre como as distorções na percepção e no processamento cognitivo podem levar a transtornos psiquiátricos.


Finalmente, Aquino observa que a falha do intelecto em dominar a imaginação pode fazer com que as pessoas ajam baseadas em falsas percepções, assemelhando-se, nesse aspecto, a animais ou a pessoas em estados alterados, como na loucura ou no sonho. Essa incapacidade de discernir o imaginário do real reflete uma perda da governança racional sobre os impulsos internos, um tema recorrente em suas reflexões sobre a saúde mental. Essa abordagem holística, que considera tanto as dimensões físicas quanto as espirituais da psicopatologia, demonstra a relevância duradoura do pensamento de Santo Tomás de Aquino para a compreensão dos transtornos mentais.



 
 
 

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