5 de abril de 2024 · 2 min de leitura
A Ansiedade e São Francisco de Sales

São Francisco de Sales escreveu sobre ansiedade no século XVII, num capítulo curto da Introdução à Vida Devota, e disse uma coisa que hoje soaria exagerada:
«A inquietação é o maior mal que pode acontecer à alma, com exceção do pecado.»
Ele não está falando de medo. Medo é reação, e passa. Ele está falando da inquietação que se instala — aquele estado em que a pessoa já não consegue decidir com calma porque tudo dentro dela está com pressa.
A descrição que ele faz do mecanismo é boa. Primeiro aparece a tristeza por alguma coisa que aconteceu ou pode acontecer. Até aí é normal. Aí a alma se agita para se livrar dessa tristeza, e é essa agitação — não a tristeza — que estraga tudo: ela tira a serenidade necessária para escolher bem, e as escolhas ruins produzem tristeza nova. A pessoa fica presa no próprio remédio.
O que ele recomenda vai contra o instinto:
Acalmar antes de agir. Não resolver enquanto se está agitado. Francisco insiste que quem age no meio da inquietação erra a proporção das coisas — vê tudo maior do que é.
Não ter pressa. Ele repete isso o livro inteiro, e é a frase mais dele que existe: fazer pouco, com calma, vale mais do que fazer muito atropelando. Vale para a oração e vale para o resto.
Ser gentil consigo mesmo. Este é o ponto em que ele estava séculos à frente. Francisco diz que a impaciência com os próprios defeitos não corrige nada — só alimenta o mesmo orgulho ferido que produziu o defeito. Corrigir-se com doçura, escreve ele, é mais eficaz do que se punir.
Contar a alguém. Ele diz para abrir o coração a um diretor ou a um amigo de confiança, e dá a razão: a inquietação vive de ficar guardada, e diminui de tamanho na hora em que é dita a outra pessoa.
Uma coisa que Francisco não podia saber e que precisa ser dita: nada disso vale para transtorno de ansiedade, que é doença e pede tratamento. O que ele descreve é o funcionamento comum da alma inquieta. Confundir as duas coisas faz mal duas vezes — deixa alguém doente sem tratamento, e deixa alguém saudável achando que está doente.