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Thácio Siqueira Agendar

17 de março de 2025 · 3 min de leitura

São José não diz uma palavra nos Evangelhos

São José não diz uma palavra nos Evangelhos

José não diz uma palavra nos Evangelhos. Nenhuma. Tudo o que sabemos dele são coisas que ele fez: acolheu uma mulher grávida quando podia repudiá-la sem escândalo, levantou de madrugada e fugiu para o Egito porque um sonho mandou, voltou quando deu, trabalhou de carpinteiro, e criou um menino que não era filho do seu corpo.

É uma biografia inteira feita de decisões silenciosas. E é por isso que ela serve para o que muitos homens estão vivendo hoje.

Porque a confusão é real. A geração dos nossos pais tinha um roteiro do que era ser homem — rígido, muitas vezes injusto, mas existia. Esse roteiro caiu, e nada tomou o lugar dele com a mesma clareza. Sobrou um homem que não sabe se ser firme é ser opressor, se ser afetivo é ser fraco, e que na dúvida faz o que dá menos briga: se ausenta. Ele continua na casa e não está lá.

O que José mostra é bem mais concreto do que um ideal de masculinidade:

  • Paternidade não é biologia. Ele não gerou Jesus, e ninguém no Evangelho hesita em chamá-lo de pai. O que faz o pai é o que ele assume, não o que ele transmitiu geneticamente.
  • Força sem violência. Ele protege a família, e não se registra uma única vez em que impõe alguma coisa pelo grito.
  • Trabalho como sustento e como lugar. A oficina não é detalhe de cenário. É onde o homem daquela família passa o dia, e é de lá que sai o que se come.
  • Obediência sem entender. Ele obedece a instruções que não fazem sentido no momento em que chegam. Isso é bem diferente de ter certeza.

Sobre os efeitos da ausência do pai: há um conjunto grande de estudos que associa a ausência paterna a mais abandono escolar, mais envolvimento com drogas e mais dificuldade afetiva na vida adulta. É associação, e vem com todos os cuidados que uma associação pede — pobreza, conflito e ausência costumam andar juntos, e separar o que causa o quê é difícil. Mas a direção é consistente o suficiente para ninguém tratar a figura do pai como detalhe de arranjo doméstico.

A boa notícia dessa história é que ela não pede heroísmo. José faz coisas que qualquer homem pode fazer: fica, trabalha, protege, e obedece a Deus nas horas em que não entende. É pouco, dito assim. Feito todos os dias durante trinta anos, é uma vida inteira.

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