3 de março de 2024 · 2 min de leitura
O ninho do João de Barro e a pergunta que a ciência não faz

Um ninho de João de Barro tem porta que dá para o lado errado do vento, câmara interna separada da entrada, e barro na proporção certa para não rachar ao secar. O pássaro não aprendeu isso, não mediu nada e não errou. Faz igual desde sempre.
Diante de uma coisa dessas, a pergunta aparece sozinha: de onde vem essa ordem?
A ciência responde uma parte, e responde bem. A evolução e a seleção natural explicam como as formas foram se ajustando. Só que elas explicam o processo, e o processo já pressupõe ordem: leis constantes, matéria que se comporta de um jeito e não de outro, um mundo em que a regularidade vale. A pergunta de onde vem essa regularidade não é respondida pelo mesmo método que a usa.
Se você encontrasse uma Ferrari numa ilha deserta, não concluiria que a maresia foi juntando as peças. Concluiria que alguém esteve ali. O raciocínio é o mesmo, e ele não é um salto de fé: é a mesma inferência que você usa o dia inteiro sem pensar.
Há ainda o ajuste das constantes físicas, que só permitem vida numa faixa estreitíssima. Isso não prova Deus como se prova um teorema. Torna caro demais o preço de atribuir tudo ao acaso.
Nada disso põe fé e ciência em campos opostos. A ciência descreve como o mundo funciona; e é possível ler esse funcionamento como o modo pelo qual Deus sustenta o que criou. Uma coisa não desmente a outra, e é raro encontrar quem trabalhe seriamente nas duas e ache que desmente.
A acusação de que crer é fechar os olhos merece ser devolvida com cuidado. Olhar para a ordem do mundo e concluir que há inteligência por trás dela é conclusão, não recusa de pensar. Quem se recusa a olhar é que está de olhos fechados, e isso pode acontecer dos dois lados.