26 de abril de 2025 · 5 min de leitura
A Liturgia de Hoje: Fé, Incredulidade e o Tempo de Deus na Igreja

A liturgia de hoje traz o final do Evangelho de Marcos (Mc 16,9-15). Em poucas linhas o evangelista junta três aparições do Ressuscitado — e, junto com elas, três recusas em acreditar.
Com a Igreja de luto por Francisco e às vésperas de um conclave, o texto pesa mais.
Três aparições, e três vezes ninguém acredita
Maria Madalena. A primeira a ver. Ela, de quem Jesus tinha expulsado sete demônios, é a que fica até o fim, e é ao seu choro que ele aparece. Vai contar aos discípulos, e eles não acreditam.
Os dois de Emaús. Iam embora de Jerusalém, o que já diz tudo. Caminham horas ao lado dele sem reconhecer, e só o reconhecem na partilha do pão. Voltam correndo para contar — e também não acreditam neles.
Os Onze. Onze, e não doze: a ausência de Judas está escrita ali sem comentário. Jesus aparece e faz uma coisa que não se espera do Ressuscitado: repreende. Repreende a incredulidade e a dureza de coração deles.
E só depois disso os envia.
O que faltava aos discípulos
Repare no que eles já tinham. Tinham o testemunho de gente próxima — duas vezes. Tinham a graça de Deus, e em pessoa. E não bastou.
O que faltava era do lado de dentro. Estavam fechados na tristeza, endurecidos, prontos para achar que era engano de quem estava sofrendo.
Isso é útil de saber, porque desmonta uma ilusão comum: a de que a dúvida se resolve com mais prova. Nem sempre é assim. Às vezes a prova está na mesa e a pessoa não consegue pegá-la, e o que ela precisa não é de argumento — é de ser tirada de onde está.
A frase mais honesta sobre isso está no próprio Evangelho, e é de um pai desesperado pedindo a cura do filho:
«Creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade.» (Mc 9,24)
As duas metades ao mesmo tempo, e sem se envergonhar de nenhuma.
O caminho que as três aparições desenham
Da fé pessoal de uma mulher sozinha, ao reconhecimento na mesa partilhada, até o envio de um grupo que ainda duvidava.
É essa a sequência, e ela respeita a fragilidade de cada um sem parar por causa dela. A missão não foi entregue a gente convencida: foi entregue a gente que tinha sido repreendida cinco minutos antes.
E hoje
A morte de um papa põe a Igreja num desses momentos. Nestes dias há católicos com tristeza, com medo, com alívio, com confusão — às vezes tudo junto na mesma pessoa.
E muita gente, olhando para a Igreja agora, só consegue ver escândalo, divisão e disputa. O que devia ser tempo de recolhimento vira campo de suspeita e de alarme.
Vale lembrar então de onde vinham os primeiros que viram: do fracasso completo. Tinham fugido, negado, se escondido. A Igreja começou exatamente assim, com esse material, e continuou.