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Thácio Siqueira Agendar

8 de abril de 2024 · 3 min de leitura

A pessoa pode deixar milhões para seguir a Cristo,,mas ficar apegada a uma caneta. Entenda.

A pessoa pode deixar milhões para seguir a Cristo,,mas ficar apegada a uma caneta. Entenda.

João Cassiano insistia numa coisa só: não perder o alvo de vista. E como estava escrevendo para monges, usava imagens que eles entendiam de imediato.

A primeira é o arqueiro. Ele fixa o alvo antes de qualquer outra coisa, e é o alvo que organiza tudo o mais — a postura, a força, a respiração. Sem alvo fixado, o resto é gesto solto.

A segunda é o mundo lá fora. Cada pessoa persegue uma coisa: uma quer lucro, outra quer vencer, outra quer mandar, outra quer sossego. E repare que essas pessoas não perdem o foco. Elas sabem o que querem e vão atrás com tudo o que têm. Cassiano usa isso como vergonha para o cristão, que diz querer o céu e vive distraído.

Mas o coração humano é um labirinto, e é por isso que se precisa de alguém que acompanhe — sozinho ninguém enxerga a própria curva.

E aí vem a observação de Cassiano que dá título a este texto, e que é das coisas mais desconcertantes que ele escreveu: há quem tenha largado uma fortuna para seguir Cristo e viva preso a uma caneta. Como é possível? Porque o seguimento não se resolve num gesto. O que se pede é pureza de coração, e ela não vem junto com a renúncia — vem depois, se vier.

Deixo o trecho, das Collationes:

VI — Existem alguns que, depois de renunciar ao mundo, querem alcançar a perfeição sem caridade.

Isso explica por que muitos homens espirituais, que haviam desprezado grandes fortunas, montes de ouro e prata, vastas propriedades terrestres, acabaram sendo vencidos por algo tão insignificante quanto uma faca, uma caneta-tinteiro, uma agulha, uma pena. Se eles tivessem mantido seu olhar fixo no alvo, que é a pureza do coração, nunca teriam se perdido em tais futilidades, depois de terem se despojado de bens consideráveis e preciosos para não encontrar neles um obstáculo à união com Deus.

Existem pessoas que guardam tão ciumentamente um manuscrito que não permitem que ninguém o veja ou toque; assim, onde poderiam encontrar uma preciosa oportunidade de paciência e caridade, encontram uma perigosa oportunidade de impaciência e morte. Certos homens espirituais agem da mesma maneira: depois de distribuírem todas as suas riquezas, por amor a Cristo, conservam o apego do coração, transferido para coisas muito pequenas, e se irritam para defender essas ninharias, como se não tivessem a caridade da qual o Apóstolo fala. Desta forma, a vida deles se torna completamente estéril.

São Paulo previa tudo isso em espírito quando escrevia: «E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.» Isso mostra que a perfeição não é alcançada de uma só vez, renunciando às riquezas e desprezando as honras, sem antes se enriquecer daquela caridade da qual o Apóstolo descreve os múltiplos aspectos. E a caridade consiste na pureza do coração! O que significam, de fato, as palavras de São Paulo que dizem: «A caridade não é invejosa, não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal»? Não é o mesmo que convidar a oferecer a Deus um coração perfeito e puríssimo, e a guardá-lo intacto de todos os movimentos da paixão?

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