15 de março de 2024 · 3 min de leitura
Tomás nunca escreveu «direção espiritual», mas ensinou como se faz

Santo Tomás nunca escreveu a expressão «direção espiritual». O termo é posterior a ele. Mas está tudo lá, espalhado em três assuntos que ele trata com cuidado: a prudência, a obediência e a correção fraterna. Quem junta os três tem o essencial da coisa.
Comece pela prudência, que na Suma é a virtude de decidir bem no caso concreto. Tomás diz que ela precisa de conselho — e conselho quer dizer perguntar a outra pessoa, não pensar mais um pouco sozinho. A razão que ele dá é desconfortável: não julgamos bem nas questões de prudência se formos maus. O vício estraga o juízo justamente na hora em que ele é necessário. Quem está dentro de um vício não vê o vício; vê os motivos que tem para continuar.
Daí a obediência entrar, e não como enfeite de humildade. Seguir a orientação de alguém mais experiente custa o preço que custa: você abre mão do seu parecer numa matéria em que o seu parecer é exatamente o que está comprometido. E na Catena Aurea Tomás recolhe a frase que explica por que se escolhe a pessoa, e não a doutrina: a vida dos homens melhora mais pelo exemplo dos bons do que pelo conhecimento dos sábios. Um diretor espiritual serve por como vive, antes de servir pelo que sabe.
A terceira peça é a correção fraterna, que Tomás trata como dever de caridade, não como direito de opinar. Há regras: em particular primeiro, no momento em que a pessoa possa ouvir, e por quem tem alguma coisa a perder se ela se perder. Fora disso vira outra coisa, com outro nome.
Junte as três e o que sobra é bem menos místico do que a expressão «direção espiritual» sugere. É alguém que conhece a sua vida, que você escolheu porque a vida dele é decente, e a quem você concedeu o direito de dizer o que você não quer ouvir. Não há muito mais do que isso, e já é muito mais do que quase ninguém tem.