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Thácio Siqueira Agendar

19 de março de 2024 · 3 min de leitura

The Chosen, e a acusação de que somos chatos

Li na Agência SIR, o serviço de notícias ligado à Conferência Episcopal Italiana, um artigo de Alessandro Di Medio que continua me perseguindo. Ele escrevia:

«Em nossas terras, a "cultura católica" se cristalizou, pelo menos em suas expressões mais difundidas na mídia, como uma "cultura contra" (contra isto ou aquilo), em vez de ser uma "cultura a favor". Com razão, queremos combater o mal, mas esquecemos da exortação paulina para vencer "o mal com o bem" (cf. Rm 12,21). Desejamos que nossos filhos não vejam certas coisas, mas não sabemos oferecer-lhes melhores alternativas para assistir.»

O argumento dele é que os católicos italianos foram assumindo uma postura pública alarmada e censora, e que quem passa o tempo todo alarmado não produz nada. E lembra, com ironia, que as gerações católicas do passado eram bem mais ousadas: conseguiam ter afrescos com nudez nas catedrais e a Inquisição ao mesmo tempo.

Talvez seja hora de nós, católicos italianos, pararmos de criticar e, seguindo o exemplo de nossos irmãos do outro lado do oceano, começarmos a fazer, e a fazer bem, com cuidado, investindo recursos e atenção, sem pensar que, só porque algo é «da Igreja», podemos fazê-lo de qualquer jeito.
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«Católico» já foi sinônimo de Divina Comédia, de arquitetura gótica e românica, da culinária dos mosteiros e de sagas épicas, de humor e lirismo.

Tudo isso ele escreve a propósito de The Chosen, série vista por milhões de cristãos no mundo e que entrou pouco na Itália. E o diagnóstico dele sobre o motivo é o trecho mais duro:

As pessoas têm sede de transcendência: como mostra o sucesso de The Chosen, o homem de hoje quer ouvir falar de Deus, de Cristo, de milagres e da ressurreição, e é tolo quem pensa o contrário; apenas gostaria de ouvir sobre eles de maneira interessante. Muitas vezes atribuímos a uma suposta aridez das novas gerações a culpa de sua distância do Evangelho, quando a pura e simples verdade é que somos chatos, porque temos medo de ousar caminhos novos.
Que nos ajude nisso o exemplo de Alguém que, para explicar as coisas de Deus, ousou analogias até então impensáveis com fermento, ovelhas, pardais e lírios, e por isso deixou as multidões, há muito entediadas pelos «mestres», boquiabertas.
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Agora o Brasil. A nossa fé veio de missionários que inovaram em tudo que era possível para evangelizar aqui. Até poucas décadas atrás as maiores construções do país eram católicas — catedrais, universidades. Hoje o país caminha depressa para ser majoritariamente protestante, e não custa imaginar grandes templos mudando de dono.

Nesse quadro, fica a pergunta que eu não consigo largar. The Chosen é mesmo perigosa para um católico brasileiro que, na imensa maioria dos casos, não sabe onde ficam os Evangelhos dentro da Bíblia? Ou estamos ocupados demais nos dividindo por questão partidária — disputa que às vezes se veste de religião para poder continuar?

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