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Thácio Siqueira Agendar

2 de abril de 2024 · 2 min de leitura

Doenças Espirituais num mundo tecnológico

Doenças Espirituais num mundo tecnológico

No Brasil há mais celular do que gente. Isso não é dado curioso: é a descrição do ambiente onde a vida espiritual de qualquer brasileiro acontece hoje.

As doenças espirituais que a tradição descreve não mudaram. O que mudou foi a facilidade. Cada uma delas ganhou um dispositivo que a serve melhor do que qualquer coisa que existisse antes.

Acedia. O demônio do meio-dia, que os monges descreveram como um tédio que ataca justamente quem tinha uma tarefa a cumprir. Hoje ele tem o telefone. Ninguém decide não rezar: a pessoa pega o aparelho «um minuto» e o minuto come a oração inteira. A acedia nunca teve aliado assim.

Soberba. A rede social é um palco montado e aberto o dia todo, com medidor de aprovação embutido. Curtida é resposta imediata a uma pergunta que ninguém devia estar fazendo o tempo inteiro: eu estou bem na foto?

Avareza. A publicidade deixou de ser interrupção e virou o próprio conteúdo, feito para você especificamente, com base no que você já olhou. É um sistema que aprende com o seu desejo e devolve mais dele.

Inveja. Aqui o mecanismo é perverso e vale nomear: você compara o seu dia inteiro, com tudo o que ele teve de ruim, com o melhor recorte do dia dos outros. A comparação é matematicamente injusta, e ninguém consegue não fazê-la.

Ira. Distância e anonimato produzem uma coragem que não existe cara a cara. A pessoa escreve o que não diria, é respondida do mesmo jeito, e sai do episódio pior do que entrou — sem ter mudado nada nem convencido ninguém.

Luxúria. Acesso instantâneo, gratuito e privado, o que é uma combinação que nenhuma outra época teve. E o efeito não é só o ato: é a distorção lenta do que a pessoa passa a esperar de gente real.

Gula. Não é só de comida. É o consumo de conteúdo que nunca sacia — mais um vídeo, mais uma notícia, mais uma rolagem. A gula clássica ao menos tinha um estômago para lhe dizer basta.

Desespero. A quantidade de má notícia disponível excede a capacidade humana de processá-la, e o efeito é impotência. A pessoa passa a saber de tudo e a não poder nada, e isso desgasta a esperança de um jeito que a tradição chamava pelo nome.

Presunção. Tudo se resolve procurando, inclusive a vida espiritual. Dá para montar um plano de oração vendo vídeo e nunca abrir a boca para uma pessoa. Funciona por um tempo, e depois não funciona.

O caminho de volta não passa por largar o telefone, que ninguém vai largar. Passa por decidir três coisas concretas: em que horas ele não entra, o que fica fora dele, e a quem você conta o que anda acontecendo. Nenhuma das três é espiritual à primeira vista, e as três são.

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