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Thácio Siqueira Agendar

10 de fevereiro de 2026 · 4 min de leitura

Entre a Verdade e a Ideologia: Onde Está a Bússola da Igreja?

Entre a Verdade e a Ideologia: Onde Está a Bússola da Igreja?

Por Thácio Siqueira

A palavra «interregno» apareceu num documento de análise de conjuntura internacional produzido por peritos ligados à estrutura da CNBB. Quem conhece a história do pensamento sabe de onde ela vem: de Gramsci. E a pergunta que isso levanta não é de geopolítica. É de gramática: quem está fornecendo a gramática com que a Igreja lê o mundo?

O documento se chama «A Conjuntura Internacional em 2026», é denso, e vem assinado por bispos, assessores e acadêmicos. Traz a ressalva de que não representa a opinião oficial da Conferência. Mas sai das instâncias em que a Igreja deposita confiança para entender a realidade, e por isso merece o discernimento dos espíritos — com caridade, e com rigor.

1. A captura da linguagem

O texto abre citando os Cadernos do Cárcere para diagnosticar os «sintomas mórbidos» da sociedade atual. Adotada a lente, a análise deixa de ser pastoral e passa a ser dialética. Quando pecado e graça saem de cena e entram hegemonia, pacto e interregno, a verdade revelada fica subordinada a uma ferramenta sociológica materialista.

E o alinhamento é visível: o discurso presidencial brasileiro aparece como «necessária ligação entre soberania, democracia e justiça social», enquanto líderes de outro espectro recebem «narcisismo» e «estratégia do homem louco».

2. A ideologia funciona como um logismos

Evágrio Pôntico ensinou o que são os logismoi: os pensamentos que chegam e tentam escravizar a alma. No debate político eclesial, a ideologia trabalha exatamente assim. Ela se interpõe entre a pessoa e a realidade, e filtra o que se vê para que a verdade sirva a um sistema já montado.

O que os Padres do Deserto procuravam era a apatheia — não indiferença, mas liberdade diante das paixões desordenadas. Um texto que se apresenta como eclesial deveria mostrar essa liberdade. Quando um documento bate com fervor de um lado e elogia com fervor do outro, ele está mostrando o contrário.

3. Realismo tomista

Tomás define a verdade como adequação do intelecto à coisa: adaequatio rei et intellectus. Uma análise católica devia ser realista antes de ser qualquer outra coisa. Esta vê pirataria no unilateralismo de uma potência e relativiza as contradições de regimes de sinal oposto sob o manto da soberania popular.

Uma antropologia sã sabe que a inclinação ao pecado mora no coração de todos os homens, e é dessa antropologia que sai o que os católicos esperam de um documento assim: que leia o mundo pelo Compêndio da Doutrina Social da Igreja, e não pela sociologia crítica de base materialista; que denuncie o mal em todo governo, sem dois pesos; e que trate a política como forma alta de caridade, e não como disputa por narrativa.

4. Até quando a divisão?

O Brasil assistiu por décadas à ocupação de espaços institucionais da Igreja por correntes progressistas, e disso nasceu uma cultura em que ser fiel à Tradição é chamado de retrocesso. No caso da CNBB, a inclinação histórica é conhecida. A pergunta é até quando esquerda e direita vão ditar o ritmo dentro das instituições eclesiásticas no Brasil.

O povo católico está cansado de ir à igreja e ouvir sociologia. Quer o Evangelho, e quer saber como se mantém a esperança em tempo de crise — que é o que os Padres do Deserto responderam, saindo do ruído para ouvir a voz de Deus.

O documento cita a Cidade de Deus. Vale lembrar que Agostinho nunca defendeu que a cidade terrena fosse moldada por ideologia; ele definiu a paz como tranquilidade da ordem, e ordem é cada coisa no seu lugar, com Deus acima de tudo e o Evangelho acima de qualquer ideologia.

Para ajudar o mundo em 2026, é preciso parar de ler a realidade com os olhos de Gramsci. A Igreja não está precisando de mais analistas políticos. Está precisando de santos, que mudam o próprio coração e com isso mudam a conjuntura inteira.

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