19 de abril de 2025 · 4 min de leitura
Humildade: A Marca da Verdadeira Piedade segundo os Padres do Deserto

Por Thácio Siqueira
Há uma coisa que os Padres do Deserto repetem tanto que fica difícil ignorar: o sinal de que alguém avançou não é o jejum, não é a vigília, não é o milagre. É a humildade. E a razão que eles dão é prática — o demônio consegue imitar quase tudo. Ele jejua, ele vela, ele mora sozinho no deserto. Só uma coisa ele não consegue fazer.
Macário e a foice
Abba Macário, o Grande, voltava do brejo com um feixe de palha nas costas quando encontrou o demônio, que tentou feri-lo com uma foice. Tentou uma vez, tentou outra, e nada.
«Grande sofrimento me causas, Macário. Tudo o que tu fazes, eu também faço. Tu jejuas? Eu não como. Tu velas? Eu não durmo. Tu moras no deserto? Eu também. Só uma coisa tu tens que me vence: a tua humildade. Por isso nada posso contra ti.»
Macário não respondeu.
O monge que fazia milagres
Outro monge curava doentes e expulsava demônios. Era procurado, consultado, admirado. Um dia o tentador apareceu a ele como anjo de luz:
«Tu és o escolhido dos últimos tempos. Mais puro que os profetas. Mais amado que os santos.»
Ele acreditou, e caiu. Um ancião, quando soube, disse:
«Não vos admireis com prodígios. Vale mais um monge que se julga indigno de rezar do que um que ressuscita mortos e se perde pela soberba.»
Poemen e a casa que cai
Um monge jovem viu o companheiro em falta e foi pedir licença a Abba Poemen para corrigi-lo.
— Abba, ele não jejua como os outros, e dorme na hora de vigiar. Posso corrigi-lo?
«Filho, quando uma casa começa a cair, tu montas andaime do lado de fora ou reforças o alicerce? Corrige primeiro a ti mesmo. O começo da salvação é a humildade.»
É uma pergunta que continua servindo. Em nome da verdade, muita gente condena o irmão com o espírito errado — e vira juiz de uma causa em que devia ser advogado.
Moisés e o saco de areia
Um irmão tinha caído em pecado, e os anciãos se reuniram para julgá-lo. Abba Moisés, o Etíope, não queria ir. Quando foi, chegou com um saco de areia furado nas costas, deixando um rastro pelo chão.
Perguntaram por quê.
«Os meus pecados vão vazando atrás de mim, e eu não os vejo. E venho eu julgar os pecados dos outros?»
Ninguém disse mais nada. O julgamento acabou ali e o irmão foi perdoado.
Por que isso importa hoje
Os Padres do Deserto fugiam de aplauso, de título e de discípulo. Não é modéstia de fachada: é que eles tinham visto de perto o que acontece com quem começa a gostar de ser visto rezando.
Santo Isaac, o Sírio, define o humilde de um jeito que ninguém acha simpático: é aquele que, tendo todas as virtudes, continua se achando pouca coisa. E Jesus põe a coisa no lugar mais simples: «aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para as vossas almas» (Mt 11,29).
Repouso. Não desempenho.
Todo dia mando uma palavra dos Padres do Deserto e a oração do dia no grupo gratuito de WhatsApp.
