7 de março de 2024 · 5 min de leitura
Há um limite entre ser um terapeuta cristão e o enriquecer-se com isso?

«De graça recebestes, de graça dai.» A frase é de Jesus, é curta, e não sai da cabeça de quem trabalha com coisa espiritual e precisa pagar aluguel.
Comecemos pelo que não está em disputa. A Bíblia não condena a riqueza; ela avisa sobre o apego ao dinheiro, que é outra coisa (1Tm 6,10). E diz também, sem rodeio, que o trabalhador é digno do seu salário. Estudar custa, morar custa, o tempo dedicado a uma pessoa é tempo que não está em outro lugar. Cobrar por isso e viver com dignidade não é problema, e quem finge que é costuma ter outra fonte de renda.
O problema aparece um passo adiante, e é fácil de descrever e difícil de ver em si mesmo: pregar simplicidade para os outros enquanto se enriquece com a mensagem. Marketing predatório, preço fixado no que a angústia da pessoa aguenta pagar, escassez inventada, promessa que a fé não autoriza. Isso não é cobrar pelo trabalho. É usar o Evangelho como matéria-prima.
E há um risco mais silencioso, que é o que eu de fato temo. Um sujeito desconhecido vira terapeuta reconhecido entre católicos, os valores sobem, a agenda enche, e em algum ponto do caminho ele parou de rezar. Ninguém decide isso. A vida espiritual dele foi sendo comida pela operação que ele montou para falar de vida espiritual.
Saiba maisHá um segundo lado disso, e ele me incomoda há anos. Ensinar os ignorantes é obra de misericórdia. Transmitir a antropologia de Santo Tomás é, nesse sentido, uma forma de pregar. Só que o ensino teológico e filosófico sério está quase todo atrás de mensalidade, e boa parte dele em outro continente.
No meu tempo de Roma, conversei com um clérigo ligado ao dicastério para a educação católica, e ele me contou que havia resistência considerável, dentro do próprio dicastério, a cursos online e a educação a distância. Não me explicaram os motivos. Fiquei com a pergunta: se o conhecimento que forma a cabeça de um católico só chega a quem pode viajar e pagar, o que estamos fazendo com o «ide e ensinai a todas as nações»?
Não tenho resposta fechada. Tenho uma régua, que uso em mim: o preço tem de caber na vida de quem procura, e uma parte do que eu faço precisa continuar sendo de graça — não como isca, de graça mesmo. Enquanto essas duas coisas forem verdade, eu continuo dormindo bem.