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Thácio Siqueira Agendar

24 de fevereiro de 2026 · 5 min de leitura

Meditação Quaresma: A Arte de Falar com o Pai

Meditação Quaresma: A Arte de Falar com o Pai

Sétimo dia. Depois do deserto e do serviço ao próximo, hoje o convite é entrar no quarto fechado. Jesus vai ensinar a rezar — e antes de dar as palavras, dá um aviso: não sejais como os pagãos, que pensam que serão ouvidos à força de muito falar.

O perigo das muitas palavras

Boa parte da nossa oração é tentativa de convencer Deus. A gente explica, argumenta, dá sugestões, repete — como se o problema fosse Ele não ter entendido ainda.

Jesus corta isso: «vosso Pai sabe do que precisais, antes que lho peçais».

A oração não transfere informação para Deus. Transfere você. É por isso que o excesso de palavra atrapalha: enquanto se está falando, ainda se está no comando.

Pai

A primeira palavra da oração que ele ensina muda o resto. No Antigo Testamento Deus é o Altíssimo, o Senhor dos exércitos, aquele cujo nome não se pronuncia. Jesus autoriza a chamá-lo de Abba.

Pare aqui, porque este ponto costuma travar mais do que os outros: como está a sua imagem de pai? Muita gente projeta em Deus exatamente o pai que teve — o ausente, o rígido, o que nunca se satisfazia. E depois reza para essa figura, sem perceber.

Chamar Deus de Pai é aceitar ser cuidado. Para quem aprendeu cedo que não podia contar com ninguém, isso é a coisa mais difícil do Pai-Nosso, e não vem numa tarde.

Santificado seja o vosso nome

Não estamos pedindo que Deus fique mais santo. Estamos pedindo que o nome dele não seja estragado pela nossa vida.

É um pedido de coerência entre o domingo e a segunda-feira. Quem reza o Pai-Nosso e vive como se Deus não existisse não está sendo hipócrita por opção — está apenas com as duas coisas desconectadas, e é isso que se pede aqui para juntar.

O pão e o perdão

Repare que se pede o pão de hoje. Não o do ano, não a reserva dos próximos dez. É pedido de dependência diária, e ele contraria tudo o que a gente organiza a vida para evitar.

Logo depois vem a cláusula mais difícil de todas: «perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos». Não é que Deus retenha o perdão por vingança. É que um coração fechado pela mágoa não tem por onde receber — quem guarda rancor está com a porta trancada pelo lado de dentro.

Livrai-nos do mal

Termina pedindo proteção, e não proteção contra uma abstração: contra a mesma tentação que Jesus enfrentou no deserto, e contra a aridez, que chega depois e dura mais.

Rezar o Pai-Nosso inteiro, com atenção, é ato de coragem. É aceitar que a vontade de Deus vale mais que a sua, admitir que se precisa de pão e de perdão, e reconhecer que se tem para onde voltar.

Reflexão para o dia

  1. Como é a sua oração? Você gasta mais tempo tentando convencer Deus, ou descansando na presença dele?
  2. Que pai você projeta em Deus? Repare em quem aparece quando você diz «Pai».
  3. Há alguém que você ainda não perdoou? Não precisa sentir. Precisa decidir, e recomeçar a decisão todo dia.

Oração final

Pai nosso, que estais no céu e aqui bem perto, ensina-me a rezar com a simplicidade de uma criança. Perdoa a minha mania de falar demais e confiar de menos. Que a Tua vontade se cumpra em mim, mesmo quando eu não a entendo. Dá-me o pão de hoje, e ajuda-me a perdoar quem me ofendeu. Livra-me da ilusão de que dou conta sozinho. Amém.

Gesto concreto

Hoje, reserve dez minutos e reze o Pai-Nosso frase por frase, com uma pausa longa depois de cada uma. Não acrescente nada. Só espere.

Quer ver como está a sua vida de oração? Faça o Itinerário da Alma.

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