21 de fevereiro de 2026 · 5 min de leitura
O Chamado no Meio do Caminho: Meditação para o 4º Dia da Quaresma

A cinza da quarta-feira já saiu da testa de todo mundo. E hoje é sábado — o dia em que a disciplina que parecia firme na quarta começa a ouvir o «deixa para depois».
Mas o deserto não fecha no fim de semana. E é justamente no sábado, longe da produtividade da semana, que costuma sobrar silêncio suficiente para escutar.
O encontro na coletoria
A liturgia de hoje traz o chamado de Levi, que depois seria conhecido como Mateus.
Para sentir a força da cena é preciso saber quem ele era. Levi não era um funcionário público qualquer: era um colaborador. Cobrava imposto para Roma em cima da própria gente, e ficava com a diferença. Era o pecador público por definição — a categoria que a sinagoga usava como exemplo do que não se deve ser.
Ninguém esperava nada dele. Provavelmente nem ele mesmo.
Jesus para. Não olha com o julgamento dos fariseus nem com o desprezo da rua. Diz uma palavra: «Segue-me.»
E Levi se levanta e vai.
Onde fica a sua coletoria
Todo mundo tem um lugar onde se senta para sentir algum controle sobre a vida.
- Para uns é o acúmulo — dinheiro, coisas, garantias.
- Para outros é a aprovação: a rede social, o elogio, a contagem.
- Para muitos é o trabalho, ou o hábito que serve para não sentir.
Jesus não pede currículo de santidade nem confere se o jejum desta semana foi cumprido. Ele diz para levantar — e é o levantar que custa, porque a cadeira é confortável exatamente por ser a nossa.
«Os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento.» (Lc 5,31-32)
Quem é atendido primeiro
Se você se sente espiritualmente doente hoje, essa é a sua senha de prioridade.
O obstáculo à graça não é o pecado — é a pretensão de estar bem sem ajuda. Enquanto alguém se declara saudável, não há o que fazer por ele, e não por castigo: é que ele não vai à consulta.
E vale inverter uma coisa aqui. Boa parte da nossa oração é tentativa de convencer Deus a nos amar. A ordem real é a contrária: ele amou primeiro, com a gente ainda sentado na coletoria.
Do arrependimento ao banquete
Levi não só seguiu. Ele deu uma festa, e chamou os colegas — a turma que ninguém convidava para nada.
Isso diz uma coisa sobre o arrependimento cristão que se esquece com frequência: ele não é a culpa que esmaga. É a mudança de direção que alivia. Quem foi visto de verdade, e não foi condenado, tem vontade de comemorar.
Reflexão para o dia
- Qual é a mesa que você precisa deixar hoje?
- Você tem coragem de admitir fraqueza diante de Deus, ou ainda anda parecendo saudável demais para precisar de médico?
Oração final
Senhor Jesus, médico das almas, obrigado por parares hoje diante da minha coletoria. Tu conheces as minhas fraquezas, as vezes em que fui desonesto comigo mesmo, e o vazio que eu escondo. Obrigado porque não me olhas com julgamento, e sim com um convite.
Dá-me a coragem de Levi para levantar. Tira-me da paralisia do medo e da falsa segurança. Que eu não tenha vergonha de admitir que preciso de Ti, e cura em mim o orgulho de me achar melhor do que os outros. Amém.