27 de março de 2024 · 2 min de leitura
O terapeuta não pode ser um cego guiando outro cego

Em Roma conversei uma vez com um diretor espiritual antigo, com décadas de atendimento nas costas, e ele me disse uma frase que eu levei anos para entender:
«Qualquer pessoa pode atender outra.»
Ele queria dizer que a capacidade de ajudar não é privilégio de formação. E é verdade: o essencial do atendimento é escutar, e escutar de verdade é raro em qualquer profissão. Sócrates guiava o interlocutor até uma coisa que já estava dentro dele — não entregava a resposta, fazia a pergunta que faltava. Boa parte do que as pessoas procuram é isso: alguém que ouça direito. Não um conselheiro.
Mas a frase tem um limite, e o Evangelho o nomeia sem delicadeza: cego guiando cego, os dois caem no buraco. Ouvir bem não é a mesma coisa que saber para onde apontar, e quem não sabe e aponta faz estrago.
No Brasil o problema é agravado por uma facilidade que assusta: qualquer pessoa se apresenta como terapeuta, e há curso vendendo certificado em fim de semana. Isso banaliza o trabalho e abre a porta para o que é pior — o sujeito que descobriu que a dor alheia é um mercado.
Para quem trabalha a partir da fé, o modelo é conhecido e é exigente. Jesus lia o coração das pessoas, sabia o que havia dentro, e mesmo assim respeitava quem não queria mudar. Ele não forçava conversão nenhuma. Quem pretende cuidar de gente em nome dele precisa aguentar a mesma coisa: ver o problema com clareza e não impor a solução.
O que sobra é o caso mais difícil de todos, e é o mais comum: a pessoa que procura ajuda e não quer mudar nada. Quer companhia na queixa. Aí a linha entre acompanhar e virar muleta fica fina, e quem não a enxerga acaba cobrando por anos para manter alguém exatamente onde está.