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Thácio Siqueira Agendar

18 de março de 2024 · 10 min de leitura

Os pecados capitais podem ser causa de enfermidades mentais?

Os pecados capitais podem ser causa de enfermidades mentais?

A pergunta do título é séria e é perigosa. Séria porque a tradição sempre chamou os pecados capitais de doenças da alma. Perigosa porque, respondida sem cuidado, ela produz o pior erro possível: culpar um doente pela própria doença.

Vou responder por partes, com Tomás na mão.

Primeiro: quantas partes tem uma pessoa?

São Paulo fala de corpo, alma e espírito, e muita gente lê isso como três andares empilhados.

Tomás lê de outro jeito, e a diferença tem consequência (Suma I, q. 76, a. 1): corpo e alma não são duas coisas grudadas — são uma substância só. A alma é forma do corpo. O que se distinguem são as faculdades: o intelecto, a vontade, os apetites.

Isso já elimina metade das confusões. Não existe um problema «da alma» que não apareça no corpo, nem um problema «do corpo» que não afete o resto.

Os capitais como doenças

Tomás não tem uma seção intitulada «doenças do espírito». O que ele tem é a análise de cada vício e do estrago que ele faz — sobre a soberba, por exemplo, em II-II, q. 162, a. 1.

E o sentido em que ele os chama de doença é preciso: são desordens de uma potência que deveria funcionar de outro jeito. Assim como uma perna quebrada é uma perna que não faz o que perna faz, a soberba é um apetite de excelência que saiu da medida.

A pergunta difícil: a soberba causa transtorno narcisista?

Aqui é preciso frear.

Tomás não faz e não poderia fazer correlação entre pecado e transtorno mental: ele escreve seiscentos anos antes da psiquiatria existir.

É verdade que a descrição da soberba — a valorização de si acima dos outros e de Deus — se parece com o que hoje se descreve como narcisismo patológico. Mas parecer não é ser, e tratar as duas coisas como a mesma faz estrago dos dois lados: transforma um vício em diagnóstico, o que dispensa a pessoa da responsabilidade, e transforma um diagnóstico em vício, o que culpa alguém por uma coisa que ele não escolheu.

A regra que eu uso é simples: onde há liberdade, há matéria moral. Onde a liberdade está comprometida, há matéria clínica. E na maior parte dos casos reais há um pouco das duas, em proporções que só se descobrem com tempo.

De onde vem a desordem

O pecado original, para Tomás, não é uma mancha jurídica: é uma desordem transmitida por propagação, e não por imitação (I-II, q. 82, a. 1). Ou seja, ninguém a adquire copiando os pais. Já se nasce assim.

E o efeito dela é bem descrito em I-II, q. 85, a. 3: a razão fica obscurecida, a vontade fica enfraquecida, e as paixões ganham autonomia que não deviam ter. A concupiscência é o nome disso — a inclinação que sobra.

É por isso que os anjos servem de contraste. Eles são espíritos puros, sem corpo e sem paixão, e ainda assim alguns caíram (I, q. 63, a. 2) — por soberba, num ato de liberdade. Não dá para pôr a culpa na carne.

Como se sai

A virtude moral se adquire por repetição de atos bons, até formar hábito (I-II, q. 63, a. 2). Não por convencimento e não por vontade isolada.

As teologais — fé, esperança e caridade — não se adquirem: são infundidas. Isso não é detalhe técnico. Quer dizer que há uma parte do trabalho que não depende do esforço, e quem não sabe disso passa a vida se cobrando por não conseguir produzir o que ninguém produz.

E há a oração, que Tomás trata como o ato de humildade por excelência (II-II, q. 83, a. 9), pela razão mais simples: quem pede está admitindo que não dá conta.

A resposta honesta à pergunta do título

Os capitais desorganizam a vida de uma pessoa, e a vida desorganizada adoece — no sono, no corpo, no humor. Nesse sentido, sim.

Mas não são causa de doença mental no sentido em que a psiquiatria usa a palavra, e ninguém deve ser tratado como se fossem. Quem está doente precisa de tratamento; quem tem um vício precisa de conversão; e é muito comum a mesma pessoa precisar das duas coisas ao mesmo tempo.

E, por fim, Tomás é claro sobre o limite (I-II, q. 109, a. 8): a desordem não é totalmente superada nesta vida. A concupiscência fica. O que muda é o governo sobre ela — e esse trabalho não termina.

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