5 de março de 2024 · 3 min de leitura
O que a pesquisa sobre religião e saúde de fato diz

Há trinta anos, dizer que religião faz bem à saúde era opinião. Hoje é um campo de pesquisa com revisão sistemática e meta-análise, e vale conhecer o que ele de fato diz — inclusive porque o que ele diz é mais interessante do que o slogan.
Harold G. Koenig é o nome maior da área. A revisão dele de 2012 reúne a literatura e conclui que a prática religiosa se associa a melhores desfechos de saúde física e mental, e que vale perguntar ao paciente sobre isso no atendimento — não para converter ninguém, mas porque é um recurso que a pessoa já tem e que costuma ser ignorado.
Rosmarin, Pargament e Flannelly mostram o outro lado, e é o achado que eu acho mais importante: as lutas espirituais — sentir-se abandonado por Deus, ou punido — predizem saúde pior. Ou seja, o efeito não é da religião em bloco. Depende de como a pessoa está com Deus.
Pargament e colaboradores tinham dado o instrumento para isso em 1998, separando o enfrentamento religioso positivo do negativo. Duas pessoas igualmente religiosas, diante da mesma perda, podem usar a fé de maneiras opostas: uma como apoio, outra como acusação contra si mesma. E os resultados são opostos.
Moreira-Almeida e Koenig defendem que não se misture religiosidade e espiritualidade como se fossem sinônimos. Quando o segundo termo é definido de forma tão larga que engloba qualquer sentido de vida, a pesquisa começa a medir bem-estar e a chamar isso de espiritualidade.
Masters e Spielmans fizeram a meta-análise sobre oração e saúde, e é a mais sóbria da lista: a oração feita pela própria pessoa mostra efeitos; a oração de intercessão à distância, feita por terceiros por pacientes que não sabem, não tem base para ser afirmada.
Para quem acompanha pessoas, o resumo prático é este: perguntar pela fé de quem está na sua frente é boa prática clínica. E não basta saber que a pessoa é religiosa. É preciso saber como ela está usando isso.
Referências
- Koenig, H. G. (2012). Religion, spirituality, and health: The research and clinical implications. ISRN Psychiatry, 2012, 278730. doi
- Rosmarin, D. H., Pargament, K. I., & Flannelly, K. J. (2013). Do spiritual struggles predict poorer physical/mental health among Jews? International Journal of Psychiatry in Medicine, 45(3), 269–283. doi
- Pargament, K. I., Smith, B. W., Koenig, H. G., & Perez, L. (1998). Patterns of positive and negative religious coping with major life stressors. Journal for the Scientific Study of Religion, 37(4), 710–724. doi
- Moreira-Almeida, A., & Koenig, H. G. (2008). Retaining the meaning of the words religiousness and spirituality. Social Science & Medicine, 66(4), 831–833. doi
- Masters, K. S., & Spielmans, G. I. (2007). Prayer and health: Review, meta-analysis, and research agenda. Journal of Behavioral Medicine, 30(4), 329–338. doi