Pular para o conteúdo
Thácio Siqueira Agendar

28 de abril de 2024 · 2 min de leitura

Quando o terapeuta se torna insensível e desumano

Quando o terapeuta se torna insensível e desumano

Ontem, no aniversário de um amigo octogenário, aconteceu uma coisa pequena que não me sai da cabeça.

Ele me cumprimentou olhando nos olhos, com atenção inteira, do jeito que os velhos ainda sabem fazer. Minutos depois chegou um político, também amigo da casa. O cumprimento dele foi frio e rápido — a distância de quem cumprimentou muita gente durante muitos anos sem se conectar com nenhuma. Vestia camisa com dizeres católicos. Foi como ser cumprimentado por um móvel.

Isso não é doença de político. Acontece com terapeuta, com padre, com diretor espiritual, com quem quer que atenda muita gente. A demanda constante endurece em vez de amolecer, e a pessoa passa a ver quem chega como mais um da fila. Quem trabalha nisso já foi essa pessoa em algum dia ruim.

O sinal é sempre o mesmo, e é físico: o olhar que não pousa, a mão que continua no telefone, a resposta que começa antes do fim da frase alheia.

Nunca se soube tanto e se dialogou tão pouco.

Duas coisas ajudam, e nenhuma é técnica.

A primeira é ler. Um livro exige foco exclusivo, e é das últimas atividades que ainda treinam a atenção longa — a mesma que se usa para escutar alguém até o fim.

A segunda é a oração mental, que é uma prática esquecida. Não é esvaziamento, como nas meditações orientais: é conversa. A instrução está em Mateus 6,6 — «quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e ora ao teu Pai em segredo». Quarto, porta, segredo. Nada de espetáculo.

E há dois avisos que servem exatamente para o que eu vi na festa. Hebreus 13,2: «não vos esqueçais da hospitalidade, pois por ela alguns, sem saber, hospedaram anjos.» E Tiago 1,19: «seja todo homem pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.»

Pronto para ouvir. É a primeira das três, e é a que se perde primeiro.

Conversar comigo

← Todos os textos