16 de março de 2024 · 4 min de leitura
Santo Tomás e a Psicopatologia

Costuma-se dizer, nas faculdades de psicologia, que a Idade Média tratava doença mental como possessão e ponto final. O livro de Henrique Eduardo Krapf, Santo Tomás de Aquino e a Psicopatologia: uma contribuição ao conhecimento da Psiquiatria Medieval, reúne o que Tomás de fato escreveu sobre o assunto. E o que ele escreveu é o contrário do que se supõe.
O ponto de partida: a alma não adoece
Tomás sustenta que a alma humana, sendo imaterial e subsistente, não se corrompe. Daí uma consequência que muda tudo: o que chamamos de doença mental não é doença da alma. É doença do corpo, que atinge o funcionamento pelo qual a alma opera.
Ele diz isso com todas as letras a respeito da insania: ela não vem de uma corrupção da alma, e sim de o corpo se afastar da devida complexão da espécie humana. Debilidade do intelecto e dos sentidos, para Tomás, é debilidade de órgão.
As quatro feridas, que são outra coisa
Há um segundo plano, e é preciso não confundir os dois. Do pecado original resultam as chamadas quatro feridas da natureza: ignorância na razão, malícia na vontade, fraqueza na irascibilidade e concupiscência no apetite concupiscível — cada uma ferindo a potência a que corresponderia uma das virtudes cardeais, respectivamente prudência, justiça, fortaleza e temperança.
Isso descreve a condição humana comum, não patologia. Todo mundo tem as quatro. Quem as trata como diagnóstico psiquiatriza a vida inteira; quem trata a doença mental como se fosse uma delas culpa um doente pela própria doença.
Duas causas para a razão sair do ar
Tomás aponta dois caminhos pelos quais o uso da razão se perde.
O primeiro é a paixão em intensidade extrema, que pode bloquear o juízo por completo. O segundo é a alteração corporal, e os exemplos que ele dá são cotidianos: o sono e a embriaguez. Nos dois casos a razão fica atada — presente, e impedida de operar.
Ele observa ainda que desejos intensos, embora não obstruam a razão tanto quanto a embriaguez, podem no limite levar à insânia. Ou seja: a fronteira entre o psicológico e o físico, para Tomás, é porosa nos dois sentidos.
As alucinações
Aqui está a parte mais curiosa. Tomás trata a alucinação como um caso de sensação, com uma diferença: a origem do estímulo é interna. E dá um exemplo médico da época — o doente que sente amargor por desequilíbrio de bile —, mostrando que a alteração dos humores modifica a percepção.
O critério que ele usa para distinguir alucinação de percepção normal é a adesão: há alucinação quando a pessoa adere à imagem interna como se fosse real, sem que os sentidos ou a razão a corrijam. É uma descrição que ainda funciona, e que se parece com o que hoje se diria sobre teste de realidade.
E quando o intelecto falha em governar a imaginação, escreve Tomás, a pessoa passa a agir a partir de imagens — como no sonho, ou na loucura.
Terapia católica