15 de fevereiro de 2025 · 5 min de leitura
Se eu estivesse aos pés da cruz, quem eu seria?

«E, voltando-se, o Senhor fixou o olhar em Pedro. E Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe dissera: “Hoje, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.” E, saindo dali, chorou amargamente.» (Lc 22,61-62)
Pedro tinha jurado que nunca trairia. Bastaram três perguntas de uma criada e de dois desconhecidos.
E então veio o olhar. Repare que Lucas não registra repreensão nenhuma. Só o olhar — e é ele que quebra Pedro, não a acusação.
Quantos de nós já negamos Cristo? Não com palavras diretas: com omissão, com covardia, com a mudança de assunto na hora certa.
A cruz é o espelho onde a gente se examina de verdade. Quem olha para ela sem fugir vê a própria miséria — e vê o amor que dá conta dela.
1. Se eu estivesse aos pés da cruz, quem eu seria?
«Todos o abandonaram e fugiram.» (Mc 14,50)
Pedro, que negou por medo? Tenho medo de ser visto como cristão num ambiente que zomba disso? Já mudei de assunto para não me expor?
Os soldados, que zombavam? Trato a Paixão como acontecimento antigo, que não me pede resposta nenhuma?
Os fariseus, que tinham certeza de estar certos? Julgo com dureza e não examino o meu próprio coração?
João e Maria, que ficaram? Fico com quem está sofrendo, mesmo sem poder resolver nada?
Sobre esse ficar, há um apotegma raro, em que se surpreende Abba Poemen em oração e ele é obrigado a dizer onde estava:
«O meu pensamento estava com Santa Maria, a Mãe de Deus, chorando junto à cruz do Salvador. Quisera eu poder chorar sempre assim.»
— Apotegmas dos Padres do Deserto, coleção alfabética (Poemen, 144). Tradução nossa.
2. Duas pessoas decidiram tudo naquele dia
Junto da cruz havia um ladrão condenado, e no dia anterior havia um apóstolo. O que aconteceu com cada um é o resumo mais duro que o deserto guardou:
«O ladrão estava na cruz, e por uma só palavra foi justificado; e Judas, que era contado entre os apóstolos, perdeu todo o seu trabalho numa só noite, e desceu do céu ao inferno. Portanto, que ninguém se glorie das próprias obras, pois todos os que confiam em si mesmos caem.»
— Apotegmas dos Padres do Deserto, coleção alfabética (Xântias, 1). Tradução nossa.
É por isso que o exame diante da cruz não é exercício de autoflagelação. É a única maneira de olhar a própria vida sem os dois enganos: o de se achar perdido demais, e o de se achar seguro demais.
Exame de consciência
- Em qual das figuras da Paixão eu me reconheço hoje?
- Onde eu tenho negado Cristo nas coisas pequenas?
- Em que ponto da minha vida eu confio nas minhas próprias obras?
Oração final
Senhor, olha para mim como olhaste para Pedro. Não quero o olhar que me condena nem o que me poupa: quero o que me mostra a verdade. Tira de mim a certeza de que estou bem. E se eu chorar, que eu chore como ele — e volte. Amém.