16 de fevereiro de 2025 · 6 min de leitura
O orgulho espiritual é o único pecado que a pessoa não sente

«Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu, o outro publicano. O fariseu, de pé, orava consigo mesmo: “Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como os outros homens — ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano.” O publicano, porém, nem sequer levantava os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: “Ó Deus, tem piedade de mim, pecador!” Eu vos digo: este último voltou justificado para casa, o outro não.» (Lc 18,10-14)
De todos os pecados, o mais difícil de tratar é o orgulho espiritual — porque ele é o único que a pessoa não sente.
O ladrão sabe que rouba. O mentiroso sabe que mente. O orgulhoso espiritual acredita que está bem. Ele reza, jejua, conhece a doutrina, evita o pecado grosseiro. E é exatamente por isso que não procura ajuda.
1. Quando o orgulho se veste de santidade
«Se alguém se considera alguma coisa, sendo nada, engana-se a si mesmo.» (Gl 6,3)
Cinco sinais, e nenhum deles parece pecado:
- Comparação. Você fica satisfeito ao reparar que os outros estão piores.
- Segurança. Você acha que já chegou a um nível razoável e que Deus está satisfeito.
- Crítica fácil. Você enxerga o erro alheio de longe e o seu de perto nunca.
- Correção mal recebida. Você suporta ser corrigido em qualquer assunto, menos em espiritualidade.
- Falta de progresso. Você reza e faz o bem, e não fica mais paciente, nem mais humilde, nem mais fácil de conviver.
Isidoro põe as duas medidas lado a lado:
«As alturas da humildade são grandes, e são grandes também as profundidades da jactância; aconselho-te a atender à primeira e a não cair na segunda.»
— Apotegmas dos Padres do Deserto, coleção alfabética (Isidoro de Pelúsia, 5). Tradução nossa.
2. Quanto mais perto, menores se viam
«Eu sou o menor dos apóstolos, indigno de ser chamado apóstolo.» (1Cor 15,9)
É um padrão que se repete em todos os santos: quanto mais avançavam, mais pequenos se achavam. E não é falsa modéstia — é efeito da luz. Quem se aproxima da fonte vê melhor a própria sombra.
Abba Agatão tinha um método, e ele é literalmente uma frase que se diz a si mesmo:
Sempre que os pensamentos o levavam a julgar alguma coisa que via, ele dizia a si mesmo: «Agatão, não é da tua conta.» E assim o seu espírito ficava recolhido.
— Apotegmas dos Padres do Deserto, coleção alfabética (Agatão, 18). Tradução nossa.
3. Como se sai disso
Pedir para enxergar. É oração perigosa e é a única que resolve. Peça a Deus que te mostre as suas falhas, e aguente o que vier.
Parar de comparar. «Cada um dará conta de si mesmo diante de Deus» (Rm 14,12). A sua luta é sua, e o que Deus pede de você não é o que pede do outro.
Aceitar correção, e ter de quem. «O tolo despreza a correção, mas o sábio a aceita» (Pv 12,1). Você tem um confessor fixo? Alguém que possa te dizer o que você não quer ouvir?
E o critério que Abba Moisés dá para saber se está funcionando é objetivo:
«Quando alguém está ocupado com as próprias faltas, não vê as do próximo.»
— Apotegmas dos Padres do Deserto, coleção alfabética (Moisés, 3). Tradução nossa.
Oração final
Senhor, por muito tempo eu achei que estava no caminho certo. Tenho me comparado, tenho olhado mais para o erro dos outros do que para o meu. Destrói em mim toda falsa segurança. Ensina-me a ser como o publicano, que não levantou os olhos. Senhor, tem piedade de mim, pecador. Amém.
Amanhã: a tibieza espiritual.