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Thácio Siqueira Agendar

9 de abril de 2024 · 2 min de leitura

Ainda é permitido errar?

Ainda é permitido errar?

Ainda é permitido errar? A pergunta parece boba, mas quem acompanha gente ouve o contrário o tempo todo: a sensação de estar sendo avaliado a cada passo, por um juiz que ninguém vê. Quem vive assim não erra menos. Passa a esconder melhor.

Santo Tomás tem uma frase curta sobre a sabedoria: Sapientis est ordinare — é próprio do sábio ordenar. Vale reparar no que ela não promete. Ela não diz que o sábio acerta sempre. Diz que ele põe as coisas no lugar, e um erro já cometido é uma dessas coisas. Reconhecer o que aconteceu, dar nome àquilo e corrigir o rumo é ordenar, no sentido exato em que Tomás usa a palavra.

Ele ainda separa os erros pela origem, e a separação ajuda mais do que parece. Há o que se faz por ignorância: não se sabia. Há o que se faz por paixão, e aqui se sabia, só que a raiva ou o medo chegaram primeiro. E há o que se faz de olhos abertos, escolhendo. São três coisas diferentes, e quem trata as três com a mesma culpa não conserta nenhuma. O primeiro se corrige aprendendo. O segundo, trabalhando o que está por baixo da reação, que raramente é o assunto da briga. O terceiro é o único que pede arrependimento no sentido forte da palavra.

Há uma segunda frase de Tomás que anda junto com a primeira: Homo, secundum quod est homo, non potest vivere sine amico — o homem, enquanto homem, não pode viver sem amigo. Ninguém acerta a própria rota sozinho. Quem nunca conta um erro a ninguém fica sozinho com a versão que inventou dele, e essa versão costuma ser boa demais ou terrível demais.

A pergunta útil, então, é a que vem depois: o que se faz agora. Um erro reconhecido, dito a alguém de confiança e corrigido, vira trabalho feito. Guardado, ele continua igual no ano que vem.

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