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Thácio Siqueira Agendar

10 de abril de 2024 · 2 min de leitura

A soberba do Terapeuta

A soberba do Terapeuta

Saber muito sobre a alma humana é perigoso para quem sabe.

A tradição cristã guardou a imagem mais forte disso na queda de Lúcifer: o mais inteligente e o mais belo das criaturas, e foi exatamente isso que o derrubou. Não caiu por ignorância. Caiu por saber e por gostar demais de saber.

A literatura repetiu o tema porque ele é verdadeiro. Fausto e Frankenstein são a mesma história contada duas vezes: um sujeito brilhante que vai buscar um conhecimento sem se perguntar o que aquilo vai fazer com ele.

Agora o caso específico de quem trabalha com gente. Um terapeuta, um diretor espiritual, um confessor acumulam uma coisa que quase ninguém tem: o mapa das fragilidades humanas, visto de perto, centenas de vezes. Esse mapa cura. E o mesmo mapa serve para manobrar uma pessoa que confia em você, e serve para se achar acima dela.

Costuma acontecer devagar e sem má intenção. A pessoa começa a prever o que o outro vai dizer, depois começa a se entediar, e um dia percebe que já não está escutando ninguém — está conferindo se a realidade combina com o que ela já sabe.

Santo Agostinho trata a soberba não como um pecado na lista, e sim como a raiz de onde os outros saem: o começo de todo pecado é querer ser o próprio princípio. Aplicado aqui, é simples de reconhecer: no dia em que o mérito da melhora do outro passar a parecer seu, o problema já começou.

Não há técnica contra isso. Há duas práticas: ter alguém a quem você presta contas do seu trabalho, e continuar sendo, em algum lugar, aquele que pergunta em vez de responder.

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