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Thácio Siqueira Agendar

15 de dezembro de 2023 · 2 min de leitura

Santo Tomás e a saúde mental

Santo Tomás e a saúde mental

Santo Tomás não escreveu sobre saúde mental, e nem podia: o conceito é de outro tempo. Mas escreveu com muito cuidado sobre uma coisa que está por baixo dela — o que faz uma vida humana ficar em ordem ou sair da ordem.

O ponto de partida dele é que a pessoa é uma só. Não existe alma de um lado e corpo do outro, cada um cuidando dos seus assuntos: a alma é forma do corpo, e o que acontece num aparece no outro. Isso tem consequência prática imediata. Angústia que vem de um corpo doente não se resolve com direção espiritual, e vazio de sentido não se resolve com remédio. Confundir os dois é o erro mais comum que eu vejo, e ele é cometido pelos dois lados.

A segunda coisa é a ideia de virtude, que em Tomás não é comportamento bonito: é um hábito que dá firmeza a quem age. Quem tem temperança não passa o dia lutando contra a comida — ele resolveu aquilo, e a energia que gastaria ali está livre para outra coisa. É por isso que a virtude tem relação direta com a paz interior. Uma vida em que cada decisão pequena custa uma batalha inteira é uma vida exausta, e o cansaço não vem do trabalho.

E há o ponto do fim. Tomás sustenta que a pessoa se organiza inteira em torno daquilo que ela toma como bem último, saiba ou não que está fazendo isso. Quando esse lugar é ocupado por algo que não aguenta ficar ali — a aprovação de alguém, o dinheiro, a própria imagem —, o resto da vida se torce para caber. Boa parte do sofrimento que chega ao consultório tem essa forma, e não a forma de um sintoma isolado.

Nada disso substitui tratamento. Tomás ajuda a fazer a pergunta certa antes de escolher o remédio: o que está desordenado aqui, e quem cuida dessa ordem.

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