31 de janeiro de 2024 · 2 min de leitura
Os Exercícios de Santo Inácio, lidos por um psiquiatra

Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola são do século XVI, e não foram escritos para ser lidos de ponta a ponta: são instruções para quem conduz outra pessoa num retiro, com o que propor e em que ordem. Um psiquiatra espanhol, Vallejo-Nágera, os estudou no século passado e concluiu que aquele método antigo continuava servindo — e servindo bem, comparado ao que se praticava na clínica do seu tempo.
O que há ali começa na primeira página, no que Inácio chama de Princípio e Fundamento. Antes de qualquer exame de consciência, antes de falar de pecado ou de virtude, ele manda a pessoa responder uma pergunta só: para que você existe. E dá a resposta que a tradição dá — o homem foi criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, e assim salvar a sua alma. Todo o resto do retiro se apoia nessa página.
A consequência vem logo em seguida, e é a parte que costuma incomodar. Saúde ou doença, riqueza ou pobreza, honra ou desprezo, vida longa ou vida curta: Inácio põe todos esses pares no mesmo lugar. Nenhum deles é o ponto. Servem na medida em que ajudam a chegar aonde se vai, e quando atrapalham, deixa-se. Quem faz o exercício com honestidade costuma descobrir que passou anos organizando a vida inteira em torno de uma dessas coisas.
É por aí que os Exercícios tocam no que uma terapia procura. Muito do que se apresenta como problema psicológico tem, embaixo, um fim mal escolhido: alguém pôs a honra, ou a segurança, ou a aprovação de uma pessoa no lugar que essas coisas não aguentam ocupar, e a vida foi ficando torta em cima disso. Inácio não começa pelo sintoma. Ele desmonta a ordem dos fins, remonta, e só então olha o que sobrou de problema.