21 de abril de 2025 · 6 min de leitura
Francisco: Um Pontificado Entre a Misericórdia e as Tormentas

Jorge Mario Bergoglio foi o primeiro papa jesuíta e o primeiro latino-americano, e deixa um pontificado que vai ser discutido por décadas. Para uns, o papa da misericórdia. Para outros, o das ambiguidades. Vale tentar um balanço honesto, com as duas coisas dentro.
A doutrina não mudou
Apesar do que se disse dos dois lados, Francisco não revogou nem alterou o depósito da fé. Reafirmou o valor da vida humana desde a concepção, o matrimônio como união entre homem e mulher, e o lugar da família.
A Amoris Laetitia (2016) foi o documento mais atacado, e é preciso ler o que ele faz: reafirma a doutrina moral e abre caminhos pastorais para o acompanhamento de situações irregulares. Uns leram confusão ali; outros, caridade pastoral. A crítica que me parece justa é sobre a precisão — faltou clareza no trato público de temas sensíveis. Mas dizer que houve revolução doutrinária é dizer o que não aconteceu.
A Evangelii Gaudium (2013) propôs a renovação missionária. A Laudato Si' (2015) foi vendida como encíclica verde e está ancorada na antropologia cristã e no magistério social anterior — quem a leu inteira sabe. A Fratelli Tutti (2020) é mais horizontal, e não nega a especificidade da fé católica.
O que quase ninguém noticiou
Francisco denunciou a ideologia de gênero com uma dureza que os predecessores não usaram, e chamou-a pelo nome que escolheu: colonização ideológica. Disse isso inclusive em foros internacionais.
Foi mais contundente do que se supõe. E foi menos ouvido, porque a imprensa que gostava dele não tinha interesse nessa parte.
A misericórdia que gerou confusão
Ele foi o papa da misericórdia, e não só pelo Jubileu de 2015: era o estilo inteiro.
Isso produziu incompreensão real. Esperava-se condenação e vinha acolhimento; esperava-se martelo e vinha a mão estendida. A confusão não nasceu tanto dos princípios quanto da comunicação — faltou, muitas vezes, explicar onde termina a pastoral e onde começa a doutrina. Ele teve de corrigir mal-entendidos, esclarecer entrevistas e desdizer frases mais de uma vez.
Francisco falou demais, e às vezes no tom errado. Numa época de rede social e polarização, isso cobrou caro. Ainda assim ele escolheu conscientemente esse risco: queria uma Igreja como hospital de campanha, e aceitou parecer permissivo para consegui-la.
As nomeações
Aqui está, para mim, o ponto mais frágil do governo dele. Nem todos os cardeais e bispos que promoveu foram exemplos de fidelidade doutrinal ou de prudência. Alguns se mostraram confusos, outros abertamente contrários à Tradição. Isso pesou, e manchou a credibilidade do conjunto.
Do outro lado da conta: enfrentou escândalos antigos, reformou as finanças do Vaticano, mexeu no Banco do Vaticano, e tratou os casos de abuso com mais transparência do que os predecessores — com resultados desiguais, mas com avanço.
Sob fogo dos dois lados
Tradicionalistas extremados o chamaram de herege, de antipapa, de usurpador, e muitos pareciam querer mais vê-lo cair do que rezar por ele. Setores progressistas fizeram o oposto: exaltaram quando ele dizia o que lhes servia, e calaram quando reafirmava a doutrina.
Foi celebrado por defender migrantes e ignorado quando falou contra o aborto. A mesma imprensa que o aplaudiu por gestos de humildade não noticiou quando ele criticou o divórcio banalizado.
O argentino e o papa
Algumas declarações incomodaram muito no Brasil — sobre julgamentos e políticos da região. Nessas horas falava o argentino Jorge Mario Bergoglio, com as simpatias do seu contexto, e não o pastor universal.
É uma distinção necessária e nem sempre feita. Ele não canonizou regime nenhum nem transformou a Igreja em trincheira partidária. As falas foram infelizes; não tocaram no magistério.
A barca segue
Francisco morreu papa, legitimamente eleito, sem abandonar a missão. Conduziu a barca com hesitações e erros de percurso, e não saiu da fé da Igreja.
Ele foi Pedro. E onde está Pedro, está a Igreja.
Senhor Jesus Cristo, Bom Pastor, recebe o teu servo Francisco, que serviu a tua Igreja como sucessor de Pedro. Purifica-o das suas faltas, acolhe a sua alma na tua paz, e dá à tua Igreja um novo pastor segundo o teu Coração. Amém.