7 de junho de 2025 · 12 min de leitura
Leão XIV: o que os primeiros meses já dizem

Um pontificado se anuncia nas primeiras semanas, e não em documento. Reuni aqui o que Leão XIV disse e fez desde maio de 2025, e o que dá para ler nisso.
O nome já era um programa
Ninguém escolhe Leão por acaso. É Leão XIII, o papa da Rerum novarum, escrita quando a primeira revolução industrial estava desmontando a vida do operário europeu.
E ele explicou a escolha sem rodeio: estamos diante de outra revolução industrial, a da inteligência artificial, com desafios novos para a dignidade humana, para a justiça e para o trabalho. Ou seja, a Doutrina Social não é peça de museu — é a ferramenta que ele pretende usar.
Continuidade declarada
No primeiro encontro com os cardeais que o elegeram, honrou a memória de Francisco, elogiando a «total dedicação ao serviço e a sobriedade essencial na vida», e reafirmou o caminho do Concílio Vaticano II atualizado na Evangelii gaudium.
Fez questão de listar os pontos que assume: o primado de Cristo no anúncio, a conversão missionária das comunidades, a colegialidade e a sinodalidade, a atenção ao sensus fidei e à piedade popular, o cuidado com os excluídos, e o diálogo com o mundo contemporâneo.
Esperança, no Ano Santo
Ele começa dentro de um Jubileu dedicado à esperança, e insiste que ela não é otimismo — está fundada na ressurreição.
Nas catequeses das audiências, tem trabalhado as parábolas. Sobre o semeador, chama atenção para uma coisa que se lê depressa demais: aquele semeador é «muito original», porque joga semente até onde é improvável que dê fruto. Deus não espera que a pessoa vire bom terreno para lhe dar a palavra.
Sobre os operários da vinha, o argumento é para quem se sente inútil: o dono sai pessoalmente procurar trabalhador, inclusive na última hora do dia. E na hora do pagamento todos recebem o mesmo — «a lógica da generosidade de Deus vai além da nossa concepção de justiça».
Aos jovens ele foi direto: «não tenham medo de trabalhar na vinha do Senhor; não adiem o encontro com Aquele que é o único que pode dar sentido à nossa vida.»
A paz, que é o tema mais insistente
Oitenta anos depois do fim da Segunda Guerra, ele repete a frase de Paulo VI: «Nunca mais a guerra!»
Sobre a Ucrânia, pede que se faça tudo para uma paz «autêntica, justa e duradoura», com libertação de prisioneiros e o regresso das crianças às famílias. Sobre Gaza, foi mais duro: pediu cessar-fogo imediato, entrada de ajuda humanitária digna, e a libertação de todos os reféns.
E define paz de um jeito que não é retórico:
«Não é o silêncio sepulcral depois de um conflito, não é o resultado de um esmagamento, mas é um dom que olha para as pessoas e reativa a sua vida.»
O desarmamento que ele pede é de arma e é de palavra. Pediu à comunicação que recuse a «guerra das palavras e das imagens», e à Igreja se ofereceu como lugar onde inimigos possam se encontrar e se olhar nos olhos. «A guerra nunca é inevitável; as armas podem e devem ser silenciadas.»
Dignidade, do nascituro ao imigrante
Aqui ele fala de um lugar pessoal. Nasceu cidadão, é descendente de imigrantes, e ele mesmo emigrou — trabalhou anos no Peru. Daí a insistência: a dignidade se estende «do nascituro ao idoso, do doente ao desempregado, seja ele cidadão ou imigrante», e permanece a mesma em todos.
Sobre os pobres, disse uma coisa que não é a habitual: eles não são só destinatários da Doutrina Social, são «continuadores e atualizadores» dela, porque enxergam de um lugar que os outros não alcançam. E encerrou com uma ordem curta: «dar a palavra aos pobres!»
Usando o Bom Samaritano, virou a pergunta do doutor da Lei: em vez de perguntar quem é o meu próximo, «faze-te próximo». E acrescentou que compaixão é questão de humanidade antes de ser religiosa — e que ajudar de verdade exige envolver-se, sujar-se.
Unidade: o lema diz tudo
Escolheu In Illo uno unum — «naquele que é um, somos um só» —, de Santo Agostinho.
O 1700º aniversário do Concílio de Niceia é tratado como oportunidade: voltar à fonte comum e aprofundar a fé cristológica ajuda a olhar as divisões de outro jeito. E abriu-se a buscar uma solução ecumênica para a data comum da Páscoa, lembrando que a falta dela «enfraquece a credibilidade do nosso testemunho».
Saudou de modo especial judeus e muçulmanos, falando em patrimônio espiritual partilhado com os primeiros e em respeito mútuo e liberdade de consciência como base com os segundos.
E aos movimentos eclesiais deixou a frase mais simples do conjunto: «ninguém é cristão sozinho.»
O resto da agenda
Igrejas orientais. Chamou-as de preciosas e retomou de Francisco a definição: são Igrejas martiriais. Preocupa-o a diáspora, e o risco de perderem a própria identidade litúrgica longe de casa.
Educação. Aos Irmãos das Escolas Cristãs, resgatou a frase do fundador — «o vosso altar é a cátedra» —, pediu que se cultive o senso crítico nos jovens, e alertou sobre o esporte que vira negócio e perde o valor educativo.
Comunicação. Pediu jornalistas pacificadores, defendeu a liberdade de imprensa, lembrou dos que estão presos por procurar a verdade, e pediu que se escute «a voz dos fracos que não têm voz».
Cúria. Lembrou que ela guarda a memória histórica e tem dimensão missionária — serve à comunhão, na caridade e na verdade.
O que dá para dizer até aqui
É cedo para julgar um pontificado, e não é cedo para ler o desenho. Leão XIV se apresenta como continuador do caminho sinodal e missionário, com a Doutrina Social como ferramenta principal e três temas fixos: esperança, paz e unidade.
A pergunta que fica em aberto é a mesma de sempre, e ela não se responde com discurso: até onde a linguagem dele vai conseguir ser clara num tempo em que tudo o que um papa diz é recortado antes de chegar às pessoas.