16 de abril de 2025 · 4 min de leitura
Meditação sobre a Quarta-feira Santa: A Sombra da Traição

«E Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos Doze.» (Lc 22,3)
A Quarta-feira Santa não tem a luz do Domingo de Ramos nem o silêncio grave da Sexta-feira. Tem um amargor próprio, feito de sussurro e de olhar desviado. É o dia da negociação.
Sobre este dia, além dos Evangelhos, há o que relatam místicas como a beata Ana Catarina Emmerich e a venerável Maria de Ágreda. Vale lembrar o que isso é: revelação privada, que a Igreja permite e não impõe, e que não acrescenta nada ao que já foi revelado. Serve à devoção de quem a acha útil.
Judas não caiu de repente
Este é o ponto que mais me interessa, e é o Evangelho que o dá, sem precisar de visão nenhuma.
Jesus escolheu Judas. Confiou-lhe a bolsa comum, que é a coisa que menos se entrega a quem se desconfia. E João registra, em algum momento antes, que Judas tirava do que ali se guardava.
Ou seja: não houve um instante em que um apóstolo virou traidor. Houve anos de concessão pequena. Uma moeda, uma justificativa, um ressentimento que não foi dito, uma expectativa frustrada sobre que tipo de Messias aquele homem deveria ser. Quando as trinta moedas caem na mesa, o que acontece já vinha acontecendo havia muito tempo.
O outro lado do mesmo dia
Enquanto isso se combina numa sala mal iluminada, Jesus se recolhe. Emmerich descreve o rosto dele pesado, e faz uma observação boa: não era medo. Medo é o que sente quem é pego de surpresa. Aquilo era outra coisa — a decisão tomada de beber o cálice inteiro, com a conta já feita.
E Maria, na tradição das mesmas revelações, pressente. Não sabe os detalhes e sabe o que importa. Reza, e cala.
Onde isto encosta em nós
A tentação é ler Judas como monstro, o que é confortável porque nos põe fora da história. O texto não deixa: ele era um dos Doze, e no fim da Ceia nenhum dos outros olha para ele. Cada um pergunta «serei eu, Senhor?».
Nós repetimos aquilo em escala pequena toda vez que trocamos a consciência por um alívio imediato — por um conforto que exige calar alguma coisa, por uma vantagem que pede uma versão levemente falsa dos fatos.
E o que Judas não fez
Aqui está o que separa Judas de Pedro, porque os dois traíram na mesma semana.
Jesus continuou estendendo a mão até o fim. Chama-o de amigo no Horto, com o beijo ainda na face. O que Judas não conseguiu não foi ser perdoado — foi acreditar que seria. Ele se fechou no desespero, e o desespero foi o pecado que o matou, não a venda.
«Amigo, com um beijo trais o Filho do Homem?» (Lc 22,48)
É a última palavra que Jesus lhe dirige, e ela começa com «amigo».