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Thácio Siqueira Agendar

26 de março de 2024 · 4 min de leitura

Nunca se soube tanto e se dialogou tão pouco

Nunca se soube tanto e se dialogou tão pouco

Qualquer pergunta tem resposta a um toque de distância. Isso deveria ter produzido uma geração de gente muito bem informada. Produziu outra coisa: gente que consome informação do mesmo jeito que consome salgadinho — sem fome, sem escolher, e sem parar.

Queremos saber o fim do vídeo, a última frase do influenciador, o desfecho da confusão que nem nos diz respeito. Essa curiosidade sem objeto é matéria-prima: é exatamente sobre ela que o marketing trabalha. E o marketing deixou de ser coisa de empresa grande — hoje uma criança de onze anos executa táticas de retenção de atenção que uma agência levaria uma reunião inteira para desenhar.

Aí vem a segunda parte, que é pior. Não basta consumir; passa-se a produzir. A pessoa começa a publicar a própria vida em busca da aprovação de gente que ela não conhece, e depois de um tempo já não sabe direito o que ela pensa de verdade e o que ela pensa para ser vista pensando.

Santo Tomás tem um nome para o que está faltando aqui, e é um nome inesperado: temperança. Não temperança na comida — na curiosidade. Ele trata disso como studiositas, o apetite ordenado de saber, e dá o nome do vício oposto: curiositas, o apetite desordenado, que quer saber sem que o saber sirva para coisa nenhuma. É uma distinção do século XIII que descreve o nosso telefone com uma precisão desconfortável.

Para Tomás, sabedoria não é volume de informação. É a qualidade do que se sabe, e o quanto isso aproxima do que é bom de verdade. Por essa régua, uma pessoa que leu três livros com atenção sabe mais do que outra que passou o ano inteiro rolando a tela.

Nunca se soube tanto, e nunca se dialogou tão pouco.

Se for para fazer alguma coisa com isso, comece por duas — e só duas, porque lista de sete ninguém cumpre:

Ouvir até o fim. Não é técnica de escuta ativa. É deixar a outra pessoa terminar a frase antes de você começar a montar a sua resposta. Repare em quantas vezes por dia você não faz isso.

Uma hora sem tela por dia, com gente por perto. Não é jejum digital nem desintoxicação. É que conversa de verdade precisa de tempo morto, e tempo morto é a primeira coisa que o telefone come.

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