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Thácio Siqueira Agendar

27 de abril de 2025 · 6 min de leitura

O Funeral que Desmentiu o Fim da Fé

O Funeral que Desmentiu o Fim da Fé

Repetem há décadas que vivemos em tempos pós-religiosos: que o homem moderno superou Deus como se supera um mito de infância, e que a fé é resto arqueológico a caminho da extinção.

Aí morreu o papa Francisco, em plena Páscoa de 2025, e o mundo fez outra coisa.

Chefes de Estado de países que se declaram laicos interromperam a agenda. Redes que passam o ano ignorando religião transmitiram horas de um rito católico. Milhões de pessoas, crentes e não crentes, acompanharam um funeral cristão e choraram nele.

A pergunta se impõe sozinha: se Deus tivesse mesmo sido superado, por que essa comoção?

A indiferença é mais rasa do que parece

A fome de Deus não morre por decreto cultural. Ela pode ser abafada, ridicularizada, ocupada com mil distrações — e reaparece exatamente onde nada mais funciona, que é diante da morte.

É por isso que aquele funeral foi tão desconfortável para o discurso oficial da época. Ele mostrou o mundo confessando, sem querer, uma coisa que passa o resto do tempo negando: que ainda precisa que alguém lhe diga que a vida vale mais do que a morte.

Por que a Igreja continua sendo procurada

Vale reparar em uma coisa incômoda. Se a Igreja tivesse se adaptado inteiramente ao relativismo, teria perdido a relevância no mesmo dia — viraria mais uma ONG, uma voz a mais no coro. O que faz dela referência é justamente aquilo que a torna antipática: ela insiste em falar de pecado, de redenção e de vida eterna quando ninguém mais fala.

Francisco viveu esse paradoxo inteiro. Passou o pontificado abrindo portas e construindo pontes, e nunca abriu mão de dizer que a Igreja é o Corpo de Cristo na história, e não instituição humana. Foi criticado pelos que a queriam mais moderna e pelos que a queriam mais rígida — o que costuma ser sinal de que se estava em outro eixo.

A presença de líderes de todas as culturas naquele funeral não foi só diplomacia. Foi reconhecimento, consciente ou não, de que o sucessor de Pedro ocupa uma função que nenhuma outra liderança do mundo ocupa.

A secularização é espuma

Ela é real na superfície e rasa embaixo. Por baixo das modas ideológicas e do pragmatismo tecnológico continua o pedido que Filipe fez em nome de todo mundo: «mostra-nos o Pai, e isso nos basta» (cf. Jo 14,8).

Repare no que atravessou as telas naqueles dias: um rito que fala de ressurreição. Quem não crê também não conseguiu desviar o olhar, e não por curiosidade mórbida — a morte de um papa é lembrete direto da nossa, e ao mesmo tempo o sinal de que a história pode não ser absurda.

Em um mundo que se proclama autossuficiente, a morte de um velho de branco bastou para desarmar a pretensão por alguns dias.

A fé não morreu. Morreu a previsão de que ela morreria.

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