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Thácio Siqueira Agendar

8 de maio de 2025 · 16 min de leitura

Os treze papas Leão, e por que este escolheu o nome

Os treze papas Leão, e por que este escolheu o nome

Treze papas já se chamaram Leão antes deste. Vale conhecê-los, porque escolher um nome é escolher uma companhia — e o novo papa sabia exatamente em que fila estava entrando.

Leão I, o Magno (440–461)

Nasceu na Toscana por volta do ano 400, num império que estava acabando. Chegou ao papado em 440 e fez duas coisas que ninguém esqueceu.

A primeira foi doutrinal. No Concílio de Calcedônia, em 451, o texto que ficou conhecido como Tomo de Leão fixou a fórmula da união das duas naturezas em Cristo, uma pessoa só. Os bispos reunidos reagiram com a frase que atravessou os séculos: «Pedro falou pela boca de Leão.»

A segunda foi política, e é a que virou lenda. Em 452, com Átila avançando sobre a Itália, Leão saiu ao encontro dele numa delegação e Roma foi poupada. Historiadores discutem o peso real da conversa — havia peste no exército huno e problemas de abastecimento —, e o fato é que ele foi, e que a cidade ficou de pé.

Deixou centenas de cartas e sermões, e foi ele quem articulou com mais força a doutrina do primado romano.

De Leão II a Leão IX

Leão II (682–683). Siciliano, pontificado brevíssimo. Ratificou o Terceiro Concílio de Constantinopla contra o monotelismo — a heresia que reconhecia em Cristo uma vontade só, diluindo a humanidade dele. Mexeu na liturgia e no canto.

Leão III (795–816). Coroou Carlos Magno no Natal do ano 800, e com isso amarrou por séculos o poder temporal ao espiritual — para o bem e para o mal. Condenou o adocionismo.

Leão IV (847–855). Depois do saque sarraceno de 846, mandou erguer a Muralha Leonina em volta do Vaticano. É dele a lição incômoda de que defender a fé às vezes exige pedra e argamassa.

Leão V (903). Dois meses de pontificado, deposto e morto na prisão. Entra na lista como sintoma: começava ali o período mais degradado da história do papado.

Leão VI (928). Também breve, também sob o domínio das famílias aristocráticas romanas. Tentou disciplina onde não havia condição de haver.

Leão VII (936–939). Veio do meio monástico e apoiou a reforma de Cluny — que seria, um século depois, o motor da recuperação da Igreja inteira. Também proibiu, num ponto que se costuma esquecer, a conversão forçada de judeus.

Leão VIII (963–965). Eleito sob a mão de Otão I, com legitimidade contestada até hoje. O pontificado dele é um caso de estudo sobre o que acontece quando o imperador escolhe o papa.

Leão IX (1049–1054). Talvez o mais importante depois do Magno. Foi o primeiro papa reformador do século XI: viajou pela Europa fazendo sínodos, combateu a simonia e a incontinência do clero, e preparou o terreno para a reforma gregoriana. E foi no pontificado dele, em 1054, que os legados romanos e o patriarca de Constantinopla trocaram excomunhões — o gesto que a história registrou como o Grande Cisma. Ele já estava morto quando aconteceu.

De Leão X a Leão XIII

Leão X (1513–1521). Giovanni de' Medici, o papa do Renascimento. Financiou Rafael e a nova basílica de São Pedro, e transformou Roma no centro cultural do Ocidente.

E foi no pontificado dele que estourou a Reforma. A pregação das indulgências para pagar a obra de São Pedro foi o estopim; a incapacidade de perceber a gravidade do que Lutero estava dizendo fez o resto. É o exemplo mais caro da história do papado do que custa confundir prestígio com governo.

Leão XI (1605). Vinte e sete dias. Antes disso fora legado na França, e teve papel na reconciliação de Henrique IV com Roma.

Leão XII (1823–1829). Governou os Estados Pontifícios num momento em que a Europa fervia. Conservador rigoroso; reorganizou o ensino, celebrou um Ano Santo — e restabeleceu restrições contra os judeus de Roma, que é a página que não se apaga do pontificado dele.

Leão XIII (1878–1903). Vinte e cinco anos de pontificado e duas obras que mudaram o século.

A Rerum novarum (1891) é a certidão de nascimento da Doutrina Social da Igreja. Escrita no auge da industrialização, ela faz o que ninguém esperava de Roma: defende o salário justo, o direito de associação dos trabalhadores, o descanso, o limite da jornada — e recusa, ao mesmo tempo, o socialismo e o capitalismo sem freio. Foi lida como texto revolucionário, e era.

A outra foi a Aeterni Patris (1879), que reinstalou Santo Tomás no centro da formação católica. Sem ela não existiria Lovaina, nem Mercier, nem boa parte do que se fez em filosofia católica no século XX.

O nome

Leo, do latim: realeza, coragem, vigilância. O Apocalipse chama Cristo de «o Leão da tribo de Judá» (Ap 5,5), e Provérbios diz que o justo é ousado como um leão (Pr 28,1).

Não é nome de papa contemplativo. É nome de papa que espera briga.

E Leão XIV

Ele explicou a escolha, e não deixou margem: é Leão XIII, e é por causa da Rerum novarum. O argumento dele é que estamos diante de outra revolução industrial — a da inteligência artificial —, com as mesmas perguntas de sempre sobre dignidade, trabalho e justiça, e sem as respostas prontas.

Se a comparação se sustentar, o pontificado terá de fazer o que Leão XIII fez: escrever alguma coisa nova sobre um problema que ainda está se formando, sem esperar que ele termine para entender.

É uma aposta alta. Foi por isso que ele pegou esse nome.

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