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Thácio Siqueira Agendar

20 de fevereiro de 2025 · 4 min de leitura

O Verdadeiro Sacrifício da Quaresma: Uma Reflexão Inspirada nos Padres da Igreja

O Verdadeiro Sacrifício da Quaresma: Uma Reflexão Inspirada nos Padres da Igreja

A Quaresma virou, para muita gente, uma lista de coisas que se tira por quarenta dias: chocolate, rede social, um ou outro prazer. Não há mal nisso. O problema é quando é só isso — porque então no domingo de Páscoa tudo volta exatamente como estava, e nada aconteceu.

O jejum que Deus escolheu

Isaías já enfrentava essa versão do jejum no século VIII a.C.:

«Acaso é este o jejum que escolhi, que o homem mortifique a si mesmo por um dia? Que incline a cabeça como um junco e se deite sobre saco e cinza? Acaso chamas a isto jejum, e dia aceitável ao Senhor? Porventura o jejum que prefiro não é este: soltar as ligaduras da impiedade, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo jugo?» (Is 58,5-6)

Santo Agostinho diz a mesma coisa de outro jeito, no Sermão 207: de que serve tirar o alimento do corpo, se o coração continua se alimentando de injustiça? Não basta tirar o pão da mesa; é preciso tirar a avareza do coração.

A constância vale mais do que o feito grande

Quase todo mundo começa a Quaresma com fervor e afrouxa na segunda semana. Na quinta, já não se lembra direito do que prometeu.

Os Padres do Deserto conheciam isso e resolveram do jeito oposto ao nosso: pouco, todo dia, é melhor do que muito por pouco tempo. Abba Poemen insiste nesse ponto o tempo todo, e a razão é simples — o que se faz todo dia forma hábito, e o feito grande e isolado forma apenas uma lembrança.

Para quem tem dificuldade real de manter constância — e há gente que tem, por temperamento ou por transtorno de atenção diagnosticado — o melhor propósito quaresmal pode ser exatamente este: voltar ao propósito toda vez que perceber que se perdeu, sem se punir pela interrupção. Voltar é a penitência. É mais difícil do que parece, e vale mais do que a lista.

O verdadeiro jejum é não repetir o pecado do qual me arrependi

São João Crisóstomo pôs isso numa homilia que já tem mil e seiscentos anos e continua sem resposta:

«Queres honrar o jejum? Então jejua também do pecado. Que a tua boca jejue de palavras más. Que os teus olhos jejuem, evitando o que é ilícito. Que as tuas mãos jejuem, ficando puras de rapina e de avareza.»

É aqui que a Quaresma deixa de ser calendário e vira trabalho. Se me arrependi da impaciência, o meu jejum é a mansidão. Se confessei orgulho, o meu jejum é aceitar ser corrigido. Se lamentei a luxúria, a penitência é o que eu faço com os olhos.

Qual jejum convém a você

Jesus dá o tripé — jejum, esmola e oração (Mt 6,1-18) —, e não diz o conteúdo de cada um, porque ele muda de pessoa para pessoa. Para o avarento, jejuar é dar. Para o vaidoso, é não ser visto. Para o disperso, é ficar.

Doroteu de Gaza dá a régua para escolher: ataca-se o defeito dominante, porque é ali que a alma é mais frágil e é ali que o inimigo trabalha. Combater outro defeito qualquer é gastar quarenta dias fortalecendo uma muralha que ninguém está cercando.

Se ao fim dos quarenta dias tudo voltar ao que era, a Quaresma foi um jejum de chocolate. Se uma coisa só tiver mudado e continuar mudada em julho, foi Quaresma.

Thácio Siqueira, terapeuta católico

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