12 de março de 2024 · 2 min de leitura
Causas últimas e causas próximas: a pergunta de Jordan Abud

Jordan Abud, em Temores Insanos, faz uma pergunta que incomoda dos dois lados:
«Os católicos que nos dedicamos à psicoterapia, que temor devemos ter em desenvolver um critério psicopatológico e terapêutico sem acudir direta ou explicitamente à Fé, ao sobrenatural ou aos dogmas?» (p. 35)
O medo, do lado católico, é virar as costas para a fé no consultório. O medo do outro lado é o oposto: explicar tudo pela fé e não olhar o que a psicologia já sabe. Os dois medos são razoáveis, e os dois produzem trabalho ruim.
Agende a sua sessãoA saída que Abud propõe passa por uma distinção antiga: causas últimas e causas próximas (p. 36). Atribuir a melhora de um paciente à vontade de Deus não é errado — é a causa última, e ela é verdadeira. Só que parar aí ignora as causas próximas, que são os mecanismos naturais e psicológicos pelos quais aquela melhora aconteceu. Quem só enxerga a última acaba desconfiando da ciência, e essa desconfiança não tem base nenhuma: a ordem natural também foi criada.
A segunda distinção é a que mais rende na prática: distinguir sem separar as dimensões sensível, espiritual e sobrenatural (p. 39). Distinguir é reconhecer que são coisas diferentes; separar é tratá-las como se não se tocassem. Quem confunde as três trata a errada — e aí um problema de humor vira assunto de confissão, ou uma questão espiritual vira caso de ajuste de dose.
Não é preciso escolher entre ciência e fé. É preciso saber qual das duas está sendo chamada a responder, no caso que está na sua frente.