14 de abril de 2025 · 5 min de leitura
Segunda-feira Santa — Reflexões sobre o Coração de Jesus

Jerusalém amanhece cheia. É a semana da Páscoa, a cidade transborda de peregrinos, e ainda ecoa o domingo: o jumentinho, os mantos no chão, as crianças gritando «Hosana ao Filho de Davi». O eco não dura. Nos corredores do poder já se olha para aquele homem de outro jeito.
Jesus passou a noite em Betânia, provavelmente na casa de Lázaro, Marta e Maria, e volta cedo para a cidade.
A purificação do Templo
No átrio, o cenário de sempre: cambistas, vendedores de pomba, boi e cordeiro, moeda batendo, gente discutindo preço. O pátio dos gentios — o único lugar onde um não-judeu podia rezar — virou feira.
Jesus faz um chicote de cordas. Não bate em ninguém. Vira as mesas, as moedas rolam, as pombas voam, e o escândalo é geral.
«A minha casa será chamada casa de oração, e vós a transformastes em covil de ladrões.» (cf. Mt 21,12-13)
Não é protesto ético contra o comércio. É gesto profético, e todo mundo ali sabia ler gesto profético: aquele Templo estava terminando. O Cordeiro verdadeiro já estava no pátio, e não estava à venda.
A figueira sem figos
No caminho de volta a Betânia, Jesus vê uma figueira com folhas e sem fruto. Amaldiçoa. No dia seguinte os discípulos reparam que ela secou até a raiz (cf. Mc 11,12-14.20-21).
É desconcertante, e Marcos põe o episódio de propósito em volta da cena do Templo — um antes, outro depois. Os dois dizem a mesma coisa. A figueira tem folhas, que é o sinal externo, e não tem o que as folhas prometem. O Templo tinha culto, movimento e liturgia, e não tinha oração.
A noite em Betânia
Volta para a casa dos amigos. Marta cozinha. Maria escuta. Lázaro, que voltou da morte, olha o Mestre que caminha para ela.
É bom lembrar aqui de uma coisa que se esquece: a Paixão não começa na quinta-feira à noite. Ela já está acontecendo por dentro, dias antes, na antecipação de tudo — o que virá, quem vai fugir, quem vai negar.
Para nós
O Templo agora somos nós. Isso não é figura de retórica piedosa: é o que São Paulo escreve, e a consequência é direta.
Há mesa de cambista dentro de todo mundo — o canto do coração onde tudo virou troca, favor por favor, aparência por aprovação. E há figueira com folha e sem fruto: a prática religiosa que continua funcionando por fora, na hora certa, e não produz nada.
Jesus entra com autoridade e não entra para destruir. Vira as mesas porque quer morar ali.
Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso.
