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Thácio Siqueira Agendar

12 de outubro de 2026 · 13 min de leitura

Psicólogos católicos: 30 nomes na história da psicologia

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Psicólogos católicos: 30 nomes na história da psicologia

Quem foram os psicólogos católicos que ajudaram a fazer a psicologia? Mais gente do que se imagina. Quando a psicologia científica ainda engatinhava, um padre belga que depois seria cardeal montou um laboratório, um padre americano foi fazer doutorado com Wundt e um médico franciscano fundou uma universidade com laboratório próprio. No Brasil, o primeiro curso para formar psicólogos nasceu numa universidade católica, nove anos antes de a profissão existir em lei.

Este texto amplia uma lista mais curta que escrevi em 2024. Desta vez conferi as datas nome por nome, em fontes acadêmicas, e corrigi o que estava errado. O critério continua o mesmo: digo quem era padre, quem era leigo, quem se converteu, e quem entra aqui sem ter sido católico. São mais de trinta nomes.

Existe uma «psicologia católica»?

Como escola à parte, com teoria própria e manual próprio, não. Quase nenhum destes autores quis isso. O que eles quiseram foi fazer psicologia bem feita, com laboratório, estatística e clínica, sem tirar do ser humano aquilo que o define: a inteligência, a liberdade, a responsabilidade e a abertura para Deus.

Por isso a expressão mais honesta é psicologia de inspiração católica, ou psicologia feita por católicos. A fé não substitui o método. Ela diz o que não pode ser cortado do objeto. Escrevi sobre essa diferença em o que quer dizer «terapeuta católico».

A raiz: antes de existir a palavra «psicologia»

Evágrio Pôntico (345–399). Monge do deserto do Egito. Descreveu oito pensamentos que atacam a alma (gula, luxúria, avareza, tristeza, ira, acídia, vaidade e orgulho) e como cada um se instala, cresce e se desfaz. É observação fina do mundo interior, mil e quinhentos anos antes de qualquer laboratório. A lista dele virou, no Ocidente, a dos sete pecados capitais.

Santo Agostinho (354–430). O livro X das Confissões é um tratado sobre a memória escrito de dentro. Agostinho foi o primeiro a fazer da própria interioridade objeto de investigação, e é por isso que tanto psicólogo, crente ou não, ainda o lê.

Santo Tomás de Aquino (1225–1274). Não é psicólogo, mas o tratado das paixões da Suma Teológica sustenta quase toda a psicologia católica que veio depois. São onze paixões, divididas entre o apetite concupiscível e o irascível, e a tese de que a emoção envolve um juízo sobre a coisa. Setecentos anos depois, a psicologia cognitiva das emoções chegou perto da mesma ideia, como se verá com Magda Arnold.

Lovaina: o laboratório do cardeal

Désiré Mercier (1851–1926). Futuro cardeal e líder da renovação tomista. No começo da década de 1890 criou em Lovaina o Instituto Superior de Filosofia e, dentro dele, um laboratório de psicologia experimental, por volta de 1892. É o mesmo ano em que nascia a Associação Americana de Psicologia (APA). Mercier queria um tomismo que entrasse no laboratório, e não um tomismo de biblioteca. Escreveu As origens da psicologia contemporânea.

Armand Thiéry. Padre. Mercier o mandou estudar com Wilhelm Wundt, em Leipzig, o pai da psicologia experimental, e depois o pôs à frente do laboratório. É o elo entre a escola de Wundt e a universidade católica.

Albert Michotte (1881–1965). Leigo católico, de família nobre. Foi aluno de Mercier, e foi uma conversa com ele que o levou à psicologia. Passou temporadas com Wundt em Leipzig e com Külpe em Würzburg. O livro A percepção da causalidade (1946) mostrou, com discos e figuras em movimento, que nós vemos uma bola empurrar a outra, sem precisar deduzir. O «efeito de lançamento» ainda é usado na ciência cognitiva. Michotte foi eleito para a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos em 1952.

Joseph Nuttin (1909–1988). Padre, cônego. Discípulo de Michotte, fez da motivação o seu tema: as necessidades humanas, os projetos e a «perspectiva temporal de futuro», ou seja, o quanto o que a pessoa espera do amanhã move o que ela faz hoje. Escreveu Psicanálise e concepção espiritualista do homem, um diálogo crítico com Freud, e Teoria da motivação humana (1980).

Alemanha e arredores: a vontade, a empatia e a intencionalidade

Franz Brentano (1838–1917). Entra com aviso. Foi ordenado padre em 1864, discordou do dogma da infalibilidade papal e deixou o sacerdócio em 1873. Mas é dele o conceito de intencionalidade: todo ato mental é ato sobre alguma coisa. A Psicologia do ponto de vista empírico (1874) marcou a psicologia e a filosofia do século XX. Entre seus alunos estavam Husserl e Freud.

Joseph Fröbes (1866–1947). Jesuíta. Estudou com G. E. Müller em Göttingen e escreveu um Manual de psicologia experimental em dois volumes (1917 e 1920), com cerca de 1.300 páginas. Foi por décadas uma das sínteses mais completas do que os laboratórios tinham descoberto.

Johannes Lindworsky (1875–1939). Jesuíta e padre, da escola de Würzburg. Estudou a vontade de modo experimental, num tempo em que quase ninguém queria tocar no assunto. O livro A vontade (1919) saiu em inglês como The Training of the Will, o treino da vontade. Terminou a carreira como professor titular de psicologia em Praga.

Erich Wasmann (1859–1931). Jesuíta e entomólogo, um dos maiores especialistas em formigas do seu tempo, com centenas de espécies descritas. Entra pela psicologia comparada: estudou instinto e inteligência animal e discutiu publicamente com Haeckel sobre evolução e fé.

Santa Edith Stein (1891–1942). Judia de nascimento, depois ateia. Estudou psicologia em Breslau, onde ensinava William Stern, e foi para Göttingen estudar com Husserl. A tese Sobre o problema da empatia (1916) é até hoje referência sobre o que acontece quando compreendemos o que o outro sente. Converteu-se depois de ler a autobiografia de Santa Teresa, foi batizada em 1922, entrou no Carmelo e morreu em Auschwitz. Foi canonizada em 1998.

Itália: o franciscano que fundou uma universidade

Agostino Gemelli (1878–1959). Médico, aluno de Camillo Golgi, positivista e socialista na juventude. Converteu-se aos poucos, entrou para os franciscanos em 1903 e foi ordenado em 1908. Na Primeira Guerra montou um laboratório de psicofisiologia para o exército. Em 1921 fundou a Universidade Católica do Sagrado Coração, em Milão, com psicologia experimental de verdade.

Luigi Rulla (1922–2002). Jesuíta, psiquiatra e psicólogo. Acompanhou centenas de candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa e mostrou que muita vocação que parece sólida se apoia em necessidades que a pessoa não vê. Daí saiu a Antropologia da vocação cristã (1986) e o Instituto de Psicologia da Universidade Gregoriana, em Roma, de 1971, onde até hoje se formam os que acompanham seminaristas.

Estados Unidos: o padre que estudou com Wundt e o monge que virou cartuxo

Edward Pace (1861–1938). Padre. Fez o doutorado com Wundt em Leipzig, em 1891, e voltou para criar o laboratório de psicologia da Universidade Católica da América, em Washington, o primeiro numa instituição católica. Foi admitido na APA no seu primeiro ano, 1892.

Thomas Verner Moore (1877–1969). Padre paulista, depois monge beneditino, por fim cartuxo. Estudou com Wundt, formou-se em medicina e trabalhou com Kraepelin e Adolf Meyer, dois dos maiores psiquiatras da época. Em 1916 abriu em Washington uma clínica para crianças. Escreveu Psicologia dinâmica (1924). Em 1947 deixou tudo para entrar na Cartuxa, e morreu em Burgos, na Espanha, aos 91 anos. Diz muito de um homem que a última palavra da carreira dele tenha sido o silêncio.

Rudolf Allers (1883–1963). Psiquiatra vienense. Ouviu Freud, aderiu a Adler e rompeu com ele em 1927. Sustentava que uma psicologia sem a dimensão moral perde o objeto, porque o ser humano decide, e decidir envolve valor. Supervisionou o jovem Viktor Frankl, foi amigo de Edith Stein e emigrou para os Estados Unidos em 1938, onde ensinou em Washington até morrer. Obras: A psicologia do caráter (1929) e The Successful Error (1940), uma crítica a Freud.

Magda Arnold (1903–2002). Psicóloga nascida na Morávia. Voltou à fé católica da infância em 1948. Em Emoção e personalidade (1960) formulou a teoria do appraisal, ou avaliação: a emoção nasce do juízo que fazemos sobre a coisa, se é boa ou má para nós, se está perto ou longe. Hoje é a base das teorias cognitivas da emoção. Quem leu o tratado das paixões de Santo Tomás reconhece a ideia.

Leo Bartemeier (1895–1982). Psiquiatra de família católica, primeiro psicanalista didata católico (1938). Presidiu a Associação Americana de Psicanálise, a Associação Psicanalítica Internacional e a Associação Americana de Psiquiatria. Prova de que se podia ser católico e estar no centro da psicanálise.

Francis Braceland (1900–1985). Presidente da Associação Americana de Psiquiatria (1956–57) e por treze anos editor do American Journal of Psychiatry. Organizou Fé, razão e psiquiatria moderna (1955), com ensaios de médicos católicos, e escreveu com um dominicano um manual de psiquiatria para crentes.

Gregory Zilboorg (1890–1959). Psicanalista em Nova York, nascido em Kiev, de família judia. Converteu-se ao catolicismo em 1945. Seu livro póstumo, Psicanálise e religião, tenta mostrar onde as duas se encontram e onde não.

Karl Stern (1906–1975). Psiquiatra alemão, judeu, que fugiu do nazismo em 1937 e se converteu em 1943, já no Canadá. A coluna de fogo (1951), a autobiografia da conversão, foi best-seller e rendeu cartas de Thomas Merton e C. S. Lewis.

Adrian van Kaam (1920–2007). Padre espiritano, holandês. Foi um dos pais da psicologia fenomenológico-existencial na Universidade Duquesne, em Pittsburgh, e depois criou o que chamou de «ciência da formação», a ponte entre psicologia e vida espiritual.

Paul Vitz. Professor de psicologia da Universidade de Nova York. Saiu do ateísmo e entrou na Igreja em 1979. Em Psicologia como religião (1977) criticou o culto ao eu de Rogers e Maslow. Esteve desde o começo no Instituto de Ciências Psicológicas, criado em 1999 e hoje parte da Divine Mercy University, na Virgínia, que forma psicólogos clínicos a partir da antropologia católica.

Holanda: a psiquiatra que o Vaticano primeiro proibiu e depois ouviu

Anna Terruwe (1911–2004) e Conrad Baars (1919–1981). Ela, psiquiatra holandesa; ele, também psiquiatra, sobrevivente de Buchenwald. A partir da psicologia de Santo Tomás, Terruwe descreveu o que chamou de neurose de frustração, depois conhecida como transtorno de privação emocional: a pessoa que nunca foi afirmada, nunca recebeu de alguém a mensagem «é bom que você exista», e por isso não consegue se afirmar sozinha. Nos anos 1950, o Santo Ofício impediu seminaristas de se tratarem com ela. Menos de dez anos depois, a Santa Sé voltou atrás, Paulo VI a consultou e os dois foram chamados como consultores do Sínodo dos Bispos. Baars levou a obra para o inglês: Healing the Unaffirmed ainda é lido.

França e Inglaterra: os que conversaram com Freud e Jung

Émile Peillaube. Padre. Por décadas deu o curso de psicologia publicado na Revue de Philosophie, trocou cartas com Bergson e deixou Caráter e personalidade (1935).

Marc Oraison. Médico e padre. Escreveu sobre vida cristã e sexualidade num tempo em que poucos padres arriscavam. O livro foi posto no Índex, ele se submeteu e continuou trabalhando. É retrato de uma época em que a Igreja ainda aprendia a lidar com a psicologia.

Victor White (1902–1960). Dominicano inglês e amigo próximo de Carl Jung desde 1945. Escreveu Deus e o inconsciente (1952). A amizade rompeu quando White criticou a Resposta a Jó, de Jung: o padre não aceitou que o mal estivesse dentro de Deus.

O que a Igreja diz da psicologia

A palavra mais citada é de Pio XII. Em 13 de abril de 1953, ele falou a um congresso internacional de psicoterapeutas e disse que a Igreja acompanhava o trabalho deles com «vivo interesse». Fez uma distinção que qualquer terapeuta deveria saber de cor: há o sentimento de culpa doentio, que a terapia pode e deve tratar, e há a culpa real, que nenhuma técnica apaga, porque pede arrependimento e perdão. Confundir as duas faz mal à pessoa, de um lado ou de outro.

Em 1958, a outro congresso, de psicologia aplicada, insistiu num ponto que hoje chamaríamos de ética profissional: ninguém pode entrar no mundo interior de outra pessoa sem o consentimento livre dela. Escrevi mais sobre esses discursos em Entre a ciência e a fé: Pio XII e a psicologia.

Psicólogos católicos no Brasil

A história da psicologia no Brasil passa muito pela Igreja, e pouca gente sabe.

  • PUC-Rio, 1953: o primeiro curso de formação de psicólogos do país, no Instituto de Psicologia Aplicada, nove anos antes de a Lei 4.119, de 27 de agosto de 1962, criar a profissão.
  • PUC-RS, 1953: o Instituto de Psicologia nasce no mesmo ano.
  • Faculdade São Bento, em São Paulo, 1951: os beneditinos trazem da Itália Enzo Azzi, formado na escola de Gemelli, para montar um laboratório de psicologia experimental. Daí vem a Clínica Psicológica da PUC-SP.
  • PUC Minas, 1959, e Universidade Católica de Pernambuco, 1961, também antes da lei.

Dois nomes merecem lembrança. O Pe. Leonel Franca (1893–1948), jesuíta gaúcho, escreveu A psicologia da fé (1934) e foi o primeiro reitor da PUC-Rio. E o Pe. Antonius Benkö (c. 1920–2013), jesuíta húngaro, que chegou à PUC-Rio em 1957, ajudou a fundar o Departamento de Psicologia, participou da comissão que criou a profissão de psicólogo no Brasil e coordenou, em 1966, o primeiro mestrado em psicologia do país.

Ou seja: o estudante católico que hoje se sente estranho no curso de psicologia está, sem saber, numa casa que os católicos ajudaram a construir. Já escrevi sobre esse desconforto em Convém que um católico fique cinco anos em silêncio numa faculdade de psicologia?

Os que entram sem ter sido católicos

Viktor Frankl (1905–1997) aparece em quase toda lista de psicólogos católicos, e não era. Era judeu. Foi supervisionado por Rudolf Allers, viveu cinquenta anos casado com Elly, católica fervorosa, e sua logoterapia, a terapia pelo sentido, conversa muito bem com a fé cristã. Mas o lugar dele é ao lado, não dentro.

Théodule Ribot (1839–1916) era positivista e fundou a psicologia científica francesa querendo separá-la da filosofia. Entra como o interlocutor: não se entende o que os autores católicos estavam respondendo sem conhecer a posição contra a qual respondiam.

Por onde começar a ler

  • Se você atende gente: Rudolf Allers, A psicologia do caráter. É o mais direto.
  • Se quer ver que foi feito com rigor de laboratório: Albert Michotte e Magda Arnold.
  • Se trabalha com afetos feridos, falta de autoestima ou carência: Terruwe e Baars, Healing the Unaffirmed.
  • Se acompanha vocações: Luigi Rulla.
  • Se quer a história inteira: Robert Kugelmann, Psychology and Catholicism: Contested Boundaries (Cambridge, 2011), e o antigo Catholics in Psychology, de Misiak e Staudt (1954).

Perguntas frequentes

Quem foi o primeiro psicólogo católico?

Depende do critério. Se for a psicologia de laboratório, os pioneiros são o padre Edward Pace, doutor por Wundt em 1891, e o grupo de Lovaina, com o cardeal Mercier e o padre Armand Thiéry, por volta de 1892. Se for a observação da alma, a lista começa com os Padres do Deserto e Santo Agostinho.

Viktor Frankl era católico?

Não. Frankl era judeu, embora tenha sido casado com uma católica e seja muito lido por cristãos.

Um católico pode ser psicólogo?

Pode, e a lista acima mostra que muitos foram, inclusive padres e santos. O que a Igreja pede é que a psicologia não reduza a pessoa a impulsos, nem ignore a liberdade e a culpa real. Pio XII disse isso em 1953 e nunca foi desmentido.

Existe uma linha de psicologia católica no Brasil?

Não como escola oficial. Existe uma tradição: os primeiros cursos de psicologia do país nasceram em universidades católicas, e há hoje psicólogos e terapeutas que trabalham a partir da antropologia cristã, cada um na sua abordagem.

Para continuar

Trabalho na fronteira entre a alma e a psicologia, a partir dos Padres do Deserto e de Santo Tomás. Se quiser estudar isso com método, há a Academia de Psicologia da Alma. Se quiser conversar sobre a sua própria vida, há a terapia católica, como acompanhamento humano e espiritual.

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